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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Lançamento literário duplo: escritores__________ Regina Lyra e Cristiano Melo - 2012








        Em meados de Março de 2012, em Brasília, acontecerá o lançamento conjunto dos mais novos livros dos escritores Regina Lyra e Cristiano Melo, “Vão da Palavra” e “da Métrica ao Caos, respectivamente. Este publicado pela Editora Novitas e aquele pela Editora Universitária (UFPB), ambos em 2011.
       
        São livros de literatura portuguesa com estilos distintos, uma vez que se trata de dois poetas que, apesar de residirem no Brasil, moram em cidades distantes, o Cristiano Melo em Brasília e a Regina Lyra em João Pessoa, da mesma maneira que os caminhos que os levaram à escrita são únicos, levando às suas verves trilharem rumos que possuem como matéria prima a palavra. Regina Lyra está em seu sétimo livro publicado e o Cristiano Melo em seu segundo. Para conhecerem um pouco mais sobre os autores e suas obras, seguem textos e mídias que dão uma ideia do que o leitor vai encontrar nestes dos livros atuais, de dois escritores que nos lembram que há Poesia hoje em dia, que existem autores vivos, produzindo suas obras e ainda, inspirarem novos autores a investirem em suas obras.
           






A INTENSA POESIA DE REGINA LYRA

Tanussi Cardoso*

Regina Lyra busca, em seu novo livro de poemas Vão da Palavra, o espaço oco, o vácuo dos significados entre as palavras: o intervalo entre o silêncio e o barulho; entre o mínimo e o máximo; entre o supérfluo e o essencial; entre o grandioso e o simples. Sua poesia transita nesse vazio, nessas reticências, nesse ar sufocante entre o que inexiste e o que existe; entre o ilusório e o real. Entremeios e Entre_Nós (título de um de seus livros). A poeta nos ensina a ser no meio desses vãos entrelaçados, diante de seus nós. Mostra-nos que a palavra resiste e nos consola, emergindo em seu fantasioso e fantástico mundo de imagens, mistérios, signos e enigmas. Assim, entre reticências e entrelinhas, no osso debaixo da pele, na raiz que existe antes da semente e da planta, na fala que vem antes da voz, Regina Lyra nos ensina que somente a poesia (o poema) pode nos salvar desse enganador mundo em que vivemos:

Na proeza das saídas,
Vejo nas dobras das entrelinhas,
Para que caibam reticências,                                               
No dobro do ato
Falho.
(Reticências)

Ou, no belo poema: Na plataforma vazia, / Entrelinhas fogem. (O trem se afasta).

Ainda: Nas entrelinhas da vida / Espinhos são encontrados / O mistério é transformá-los / Em rosas. (Fraternidade). Estes, entre tantos títulos.

Afinal, para Regina Lyra, a vida é um vão entre o passado e o futuro. O presente é um vão, como observa a poeta no ótimo poema O barco: Assim como a vida, / Precisa-se voltar a antigas páginas, / Ou virá-las definitivamente.

Há de se viver o agora. Viver o que a vida nos oferece. Sem atropelar os desejos. Sem sofrer pelo que aparenta não ser possível. Viver o que está nas mãos, diante dos olhos, sem alienação ou passividade. Com sabedoria na hora da decisão, pois entende que a vida é fugaz. Vejamos o exemplo desse instigante poema:

Encruzilhadas
Levam para bifurcadas estradas.
(...)
Nessas eternas escolhas,
Fazer o quê?
Viver intensamente
O presente doado.
(Escolhas)

Porque, para ela, a vida é uma circunstância: Tudo, circunstancial: como a vida. (Transgressora da palavra).

Logo no primeiro poema do livro, a autora nos direciona ao seu modo de pensar e fazer poesia: Entre o vão da palavra, / Versos criados com calma. (A criação).

Assim, com inteligência e sátira, Regina Lyra nos diz do seu jeito de permanecer sem jeito; e nos dá a receita do cozimento das palavras: o tempero, o sal, o mel, o melhor paladar. E, no tempo certo da fervura, nos oferece o gosto do prazer:

Quando escrevo um poema,
Sinto o sabor das palavras,
Degusto as imagens,
Faço amor com os versos.
(...)
Quando escrevo um poema,
Sei que é uma aprendizagem.
(Transgressora da palavra)

Regina Lyra constrói climas descritivos, em versos afetivos, como se quisesse criar uma atmosfera poética onde pudesse deixar suas impressões sobre a vida e o mundo. Nesse contexto, poderíamos separar sua obra em temas recorrentes, dividindo-os em quatro grandes vertentes: 1) O sensual/sexual, ou seja, a vertente do desejo e do amor (lírico e erótico). 2) O Tempo, com seu sentido de eternidade. 3) O fazer poético. 4) A perda e a partida, incessantes sensações que dominam todo o livro. 

Apesar da diversidade temática, Vão da Palavra tem unidade; essa qualidade tão importante, distanciada de tantos poetas. Inúmeros poemas nos remetem a esses motivos:

Nesse espaço da existência,
O tempo carece da razão.
(...)
Encontra-se abrigo,
No imaginário perdido.
(Regaço)

Ainda: Eterno como o tempo / Terno como a voz sussurrante. (Intenso eterno). Cerrados os olhos / Encontra o sonho partido, / Pássaro querido. / (Por que, afinal?). Busco meus eus perdidos / Nos oásis do deserto. (Transgressora da palavra). A partida do imenso, / A falta do grande. (...) / A melancolia de mais uma partida, / A alegria de mais uma chegada. / Nesta ausência, a presença: / Constância do tempo. (Brevemente). A voz estaria calada, / Por longos instantes perdidos. / (Anjo), entre tantos exemplos.

Para Regina Lyra, o amor é uma prisão, onde os amantes encontram-se, geralmente, algemados. Vejamos o belo poema Algemas, onde se ratifica a sensação de perda:

As lembranças,
Imagens acalentadas,
Presenças perdidas.
O amor instalado
Foi divertido:
Algemas lado a lado.
Nada seria preciso.
Nem mesmo confissão
Da perda, da ausência.
Tristeza por não ter permanecido,
Quando, na verdade,
Apenas sexo era querido.
(...)
Dia seguinte,
Instalado o logro.

Mas, apesar de quase sempre, logro, para a poeta: o amor é tudo. Já que o mundo é carregado por ele:

Neste desvelo,
As ancas fazem tudo,
Vê-se o mundo
Suportado
Pelo amor.
(Alcova)

Mesmo aspirando à eternidade do amor, conhece a dor do tempo e a fragilidade de se estar vivo: Ser feliz é ter ao lado o / Amor / eterno (Ser feliz).

Ou: Ah, amor!/ Como é bom ter esperança / Do encontro real, / Total. (Amor querido).

E é falando sobre o amor erótico, que Regina Lyra obtém, talvez, o melhor momento do livro, num poema digno de ser incluído em qualquer antologia do gênero:

Enquanto você brinca, eu abro orquídeas.
Levo meu cheiro de fêmea no cio.
Abro as pétalas e as coxas,
Em movimento contínuo.
(...)
Enquanto você brinca,
Eu abro orquídeas
Para
Você.
(Brincando de fazer amor)

A eternidade (o sentido de permanência e a intensidade emotiva das coisas e do Tempo) encontra-se em muitos poemas do livro, sendo, também, tema caro à autora:

Na intensidade do tempo
Passou-se o momento sem preço.
Antes que se tornasse avesso,
Travestiu-se de eternidade.
(...)
No instante intenso,
A história é contada.
(Intenso eterno)

Ou: Situação perpetuada / Pela intensidade do ontem. (Dilacerada). Intenso pensamento / Permeia a navegação do tempo. (Pensamento). E, assim, outros poemas.

Com o grande mérito de nunca ser prolixa, Regina Lyra constrói uma poesia etérea, difícil de ser catalogada ou classificada. Simples e, ao mesmo tempo, profunda. Em sua quase totalidade, são poemas pequenos, construídos em versos curtos; trabalhados em elipses, silepses, cortes e nós. Como se pensamentos soltos, embaralhados, causando certa estranheza em seu total entendimento; unidos, tantas vezes, pelo silêncio; que, ao leitor, cabe preencher.

Esse clima cria um estilo próprio, único. Como se a poeta, de forma proposital, desejasse causar certo desconforto na leitura; com versos que, muitas vezes, parecem cifrados, fora de contexto, desconectados uns dos outros; principalmente, nos términos de alguns poemas. O que a autora deseja com essas construções é dessacralizar o que possa haver de peso ou drama nos versos que antecedem os seus finais. Regina Lyra foge do final-padrão, com versos em crescendo, ou com versos que coroem o encadeamento lógico do poema. E essa característica é uma singularidade de sua poesia. Ela é avessa ao barulho, ao poema-ópera. Seus poemas se interrompem como se interrompe uma conversa com amigos, quando uma fala se coloca e se interpenetra na outra. No vão da palavra. Sem perguntas, porque há sempre uma lacuna entre o que se diz e o que realmente se quer dizer - aqui lembrando o Fingidor, de Pessoa. Regina Lyra brinca de esconde-esconde com o leitor, conversa com ele, não o assusta. Quer tocá-lo com as palavras mais simples, não com o grito. Prefere o jeito sincero e sensível. E consegue:

A noite foi carregada de lembranças,
Crenças.
Nada de preocupações vãs.
A amizade é eterna
Confiança misteriosa.
(Noite inesquecível)

Ou: Belo encanto / Pelos caminhos do poema, / Do qual guardo o tema. / (...) / Triste momento / Da foice escapa, / Mas não abafa o salto. (Caminhos poéticos). Apenas para citar alguns.

Não há nada de falso intelectualismo e pseudoerudição nessa sua forma de versejar. A poeta não se permite. Nada de academicismos ou afetação. Sua poesia é extremamente moderna sem, entretanto, retirar uma vírgula sequer de suas raízes clássicas. Isso a torna atraente, inteligente e deliciosamente lírica. Sem preciosismos formais, seus recursos estéticos e técnicos eliminam gorduras, buscam a concisão. Não há derramamentos de angústias, dores de amores ou de infância; enfim, qualquer tipo de dores em clichês. Ela não pretende ser visceral, tediosamente sofrida. Ela nos fala sem estridências. Prefere ser plácida, pausada, buscando a palavra precisa e justa; serena em suas aflições. Menos tango e mais soul. Uma dicção que não soa áspera, agressiva; antes, seus versos - mesmo quando contundentes - soam aveludados, delicados, musicais. Num ritmo cool, jazz.

Em sua poesia - extremamente feminina - o fazer poético consegue equilibrar, somar lirismo e vida; quase sempre, com grande felicidade. Obtém, portanto, uma poesia profundamente humana. E o faz com categoria, emoção e razão.
Assim, Regina Lyra não foge de suas tradições, de suas raízes literárias e poéticas (suas várias leituras e vozes). E imprime em seu trabalho um encantamento ilusório, um estranhamento ao que já foi dito e lido. Nota-se um afastamento crítico de certa literatura oficial. Há um aprofundamento dos versos; quase sussurros... Coloquiais, feitos de silêncios. Aspecto que confere à sua poesia uma vitalidade expressiva, que a torna singular na literatura brasileira. Ela alcança o que poucos alcançam: uma poesia reflexiva e coerente. Uma poesia comovente!

Outra característica que podemos encontrar nos poemas da autora é que muitos deles contam - mais do que sentem - sobre as emoções. Como se a poeta não estivesse dentro deles, não falasse de si mesma, se abrigasse numa outra persona. Inverte ou oculta o eu-lírico, o poeta-autor (a voz do poema). Prefere a distância, a ausência medida. Vê tudo com o olhar entusiasmado de um observador, de um fotógrafo, de um cineasta. Godard. Nouvelle vague. Ao mesmo tempo, na cena e fora dela.

Com os versos transformados em vãos entre a linguagem e a ideia do poema, Regina Lyra radicaliza a sua estrutura. Mistura as vozes poéticas (eu-lírico/poeta-autor) ou quebra, abruptamente, o andamento (cadência, ritmo) do poema. Os versos fluem harmonicamente, mas por vezes são quebrados por dissonâncias, com ritmos diferenciados. São sonhos ou realidades, vividos ou não, pela autora. Poeta que ora se esconde, ora se mostra; mas sempre de maneira sutil, plena de subterfúgios. Vejamos:

Talvez tenham chegado
No momento certo,
Para descortinar
O que estava encoberto.
(...)
Apartados de mim,
Fui ao fim!
(Perdição)

Ou: Nada me faria mais feliz / Do que romper laços, / Mesmo em sombras de traças, / Atracadas em cais fantasma. / (...) / Talvez na fé de um momento qualquer, / Libertar-se-á. / (Nada faria), e vários outros poemas.

Regina Lyra, com sua característica de (re)novar o seu próprio verso, sem deixá-lo cristalizar; com sua solução de movimento, atira-se nos poemas, sem medo de errar. A poeta - consciente e humildemente - prefere agir, fazer, ousar; ao invés de ver seu trabalho e a si mesma estagnados. Leiamos o ótimo poema Medo:

Não ter medo.
Exorcizar os temores.
Agradecer a ajuda
Em tudo
- Até no erro.

Outra especificidade formal que podemos encontrar nos poemas de Regina Lyra é a distribuição espacial dos versos nas páginas. Em particular, o recurso da verticalização das palavras, existente na grande maioria dos poemas inseridos no livro. Um recurso estilístico que, nem sempre, cumpre com a aparente intenção de enfatizar a força da palavra dentro do poema. Trata-se de uma técnica anteriormente muito empregada pelos poetas das Gerações 60/70, por influência dos concretistas. Utilizada à exaustão, pode correr o risco de cair no vazio, numa espécie de recurso do estilo pelo estilo. A leitura minuciosa desses poemas e da função da verticalidade na poesia da autora permite ao leitor extrair elementos para entender (para efeito de juízo crítico) se essa preocupação está enraizada na intenção da poeta ou se pode qualificar-se, somente, de vício literário ou de moda poética. Porém, se analisarmos com isenção a característica da função da verticalidade na poesia de Regina Lyra, teremos a certeza de que ela exprime a sua dimensão interior. Assim, nada se encontra ali por acaso, nada é feito de maneira gratuita. Desse modo, a insistência da autora na utilização das palavras em vertical tem a exata função de enfatizar uma ideia, que dá lógica e suporte a um pensamento poético.

Para finalizar, um pequeno exemplo, não à toa intitulado Poemas. O texto salienta o que me parece ser o atual estágio de seu trabalho: uma pérola lapidada.

Em cada bom poema que leio,
Encontro pérolas aninhadas.
Desconfio que a poesia
Seja uma pérola lapidada.

Acreditem: Regina Lyra, em seu livro Vão da Palavra, lê o mundo e o devolve a nós, seus leitores atentos, refeito em beleza.


*Tanussi Cardoso
Poeta e Jornalista.
Presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro.









PREFÁCIO DO LIVRO DE CRISTIANO MELO *




Há mais ou menos três anos, o Cristiano Melo enviou um e-mail perguntando o que eu pensava sobre ele enveredar pela escrita de sonetos. Na hora eu disse que escrever sonetos era extremamente difícil, pois envolvia matemática (métrica), conteúdo e emoção. Contei para o Cris que eu era apaixonada por sonetos, principalmente os de Augusto dos Anjos, e que fazia algum tempo tentava escrever, mas esbarrava na matemática. Cearense porreta que é, ele não desistiu e disse que escreveria sonetos em seu próximo livro. David e eu acreditamos no projeto, principalmente pelo desafio e a beleza que sonetos perfeitos despertam.
No meio desse ano, Cris terminou o livro e teve a ideia de misturar sonetos e poesias livres em versos brancos, rimados ou somente sentidos. “Da Métrica ao Caos” são dois livros em um, unidos por suas duas capas; a primeira parte do livro com poesias e sonetos belíssimos, complementado na segunda metade por poesias variadas em assuntos e estilos, resultando em um “produto final” que é tanto elegante quanto arrojado. Você não terá coragem de abandonar a leitura de “Da métrica ao caos” até chegar ao final, viciante que se tornou.
Cris, que já tinha a mão certeira para escrever, mirou no alvo, arriscou e trabalhou muito para concluir seu novo  livro. Foram quase três anos, de revisão, contagem de sílabas… Da matemática-emoção. O resultado está aí, em um livro bem realizado, que sempre será um brinde à literatura!

*Letícia Losekann Coelho
Editora, escritora e pedagoga.










sábado, 3 de setembro de 2011

*Sétimo andar




Há algo de estranho...
Sim, há algo de estranho!
Virar a cabeça e não conseguir ver nada,
Aguçar o ouvido e não ouvir patavina.

Os sentidos embriagados por barbitúricos e álcool,
Álcool e mais barbitúricos,
Há algo de estranho quando tenta se aliviar com cortes.
Navalha afiada, pele desfiada.

Há alivio na dor do profundo?
Os sentidos desaparecem,
A brasa do cigarro já queimou a face.
Relance de uma cicatriz marca ao mundo.

Há algo de estranho...
Não, não há ou há?
Álcool, mais álcool, mais cortes,
Mais cicatrizes futuras.

Defunto ainda vivo com urubus ao ar,
A foto do porta-retrato rasgada,
A janela escancarada do sétimo andar,
Ninguém para telefonar.

Sim, algo perece junto aos sentidos!
Não se ouve, vê, sente, degusta ou cheira,
Só a cor do sangue pisado, coagulado
Dos cortes e das queimaduras.

Ninguém para o ouvir, tudo quieto.
Os gatos com comida para meses,
E as reses vão para o abate, sem sentir.
Há algo de estranho que se joga do sétimo andar!




*poema em versos brancos em "AO CAOS" de "Da métrica ao caos", próximo lançamento pela Editora Novitas 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quando não se...




Quando não se entende
Jamais já é nunca
Sol derrete a Lua
Monte vai ao vento...

Quando não se estende
Mão alguma branca
Marte e Vênus nua
Monte foi com o tempo...

Quando não se atende
Muda a rosa fica
Mercúrio na sua
Monte borra lento...

Quando não se sente
Passa a vez da tranca
Netuno na rua
Monte quebra dentro...

Quando não se mente
Finda a sina manca
Saturno em suma
Monte some ao centro.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Anjo*

Hesíodo


Anjo,
Suas asas abanam pestes,
Silenciam agruras
Do passado recente,
Presente!

Aparição fugaz,
Asa branca
Celestial.

Sorriso aberto,
Céu da boca estrelado,
Palavras de brilhante,
Beijo suave
Angelical.

Encanta-me em teu voo
Ao meu redor,
Ave de rapina
Que fui.

Paixão,
Rio revolto,
Caminho sem garantias,
Acompanhado.

Pecado?
Felicidade?
Sorte?
Azar?

Anjo, anjo
Espanta para longe 
Essas dúvidas
Que são nossas.

Serei seu anjo
Enquanto o sonho não vem!

E a noite nos embala
Ao som de mil trompetes:
Gritos e urros,
Suor e sorrisos,
De uma asa à outra.

Anjos caídos, 
Entregues,
Sorridentes,
Querubins apaixonados.


*Poema em versos brancos integrante do livro " Da métrica ao caos" a ser publicado e lançado em breve pela Editora Novitas

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cortejo*




Citar belezas ditas em cortejo
Fixar olhares de desencontrados
Dedicar mocorós adocicados
Suspirar queimadas de sertanejo.

Afagar a mão na faceta crespa
Beijar a boca com a boca tesa
Seduzir gotas de suor em festa
Somando doces à leveza honesta.

Seria quase fácil tal feitio
Se este a que vos estende teso o verbo
Não quisesse que não fosse soberbo.

Em sua fantasia mais cortês
O cortejo há de ser feito plantio
Sem rosas falsas num talo burguês.


*soneto integrante do livro " Da métrica ao caos" a ser publicado e lançado em breve pela Editora Novitas

sábado, 6 de agosto de 2011

Doce atração




Ser saído da casca,
Trincada e rachada,
Tem seu coração.

Começo da casca,
Caminho no nada
Para tua mão.

O que lhe é tangível,
Por si invisível,
Cora a solidão.

Dois seres, possível,
Ir para a infalível
Doce relação.



quarta-feira, 6 de abril de 2011

IV Coletânea Scriptus



Mais uma parceria com a Editora Novitas, a IV Coletânea Scriptus que dessa vez vem com o título "Visão [D]escrita", onde participo pela terceira vez de suas coletâneas. Além de divulgar esta parceria gostaria de já fazer a divulgação do próximo livro, com a mesma Editora, que terá o título de "Da métrica ao caos", capa feita por meu irmão Alexssandro Melo:


Aguardem mais novidades em breve, e desde já agradeço aos meus leitores pelos incentivos, meus editores, meu irmão e família.

Cristiano Melo

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Gustava


Há tempos não via aquela bunda, rebolando faceira, por dentro daquele vestido florido, as mesmas flores amarelas de sempre, próximas a folhas de temperos e hortaliças, que roçavam em seu pano puído. Passava com aquele perfume forte pra uma manhã em que até os pássaros, preguiçosos, davam os primeiros sinais de que o Sol surgia na cidade.

Onde andaria Gustava que simplesmente desaparecera sem se despedir da vila? Alguns se perguntavam do porque de não ter se despedido, ela era sempre tão gentil, ajudava todo mundo, cozinhava bem e todo mundo sempre se fartava na bóia da Gustava, quase todo dia. Pra falar a verdade, era todo dia, variava apenas um ou outro vizinho, mas Gustava adorava ficar nas panelas, suada, com aquela fumaça toda, os cheiros, o chão engordurado, as visitas que beijavam seu rosto ensebado. Mas, antes de todos comerem, a corpulenta mulher tomava seu banho e voltava com aquele perfume forte, o de sempre. Refestelavam-se logo que Gustava pegava na colher, era uma comedeira, bebedeira, balbúrdia alegre e encantada para quem comia daqueles pratos de tempero maravilhosos, e tinha pra todos os gostos, peixe, carne, frango, feijoada, farofa, pirão, era sempre farto, sempre.

Recordo que foi num dia chuvoso, que percebi as primeiras pessoas se amontoando ao meio-dia na porta do barraco de Gustava. Lembro que era chuvoso, pois na vila quando caía muita água, o rio próximo transbordava e a molecada não ia pra escola pra ficar tomando banho de rio, que eram as vielas da vila, e, mesmo com o rio barrento, havia pessoas que aguardavam à porta fechada de Guta, criando uma imagem difícil de esquecer, a enxurrada acima dos joelhos, já nos quadris, e como em fila de banco, alguns começavam a reclamar da demora. E, ela não apareceu. A porta continuou trancada.

Passou-se alguns meses até não se formar mais fila alguma naquele barraco de compensado vermelho, pintado de roxo. E nem sinal da enorme mulher. Não demorou para que as teorias surgissem, pois ela era, além de fisicamente incomparável, alta, gorda, negra e sorriso aberto, largo sob olhos enormes de bolas avermelhadas e manca, era a vizinha mais gentil e dedicada da vila. Além da comilança, sempre disponível para dar seu colo divã para quem precisava chorar, e ela enrolava os cabelos da pessoa e não dizia nada enquanto choravam até molhar suas pernas de lágrimas. Parecia até consultório psicológico, pois de hora em hora, Gustava nunca soube, chegava sempre um, após as três da tarde, quando acabara de lavar a pilha de panelas e pratos do almoço, eles chegavam, um a um, sempre.

Das teorias que surgiram, nenhuma passava nem perto de ela ter conhecido alguém e fugira para viver uma vida de amor carnal, ela era uma santa, como santos podem ter relacionamentos afetivos? Nem passava pela cabeça do mais ousado da vila, ainda mais porque ela era o que era, quem iria querer ter alguma coisa com aquela mulher parecida saída das portas dos infernos? É o que se perguntavam os moradores da vila. Impossível, eram taxativos, jamais Gustava iria deixá-los por causa de namoricos, imagine! Se ela fosse trepar com alguém quebrava a cama, relinchavam os mais novos. Quem conseguiria abraçar aquele tribufu, era a questão no bar da esquina. Ela era feia de doer, ainda bem que foi embora, ninguém aguentava ver aquela bundona rebolando manca pela vila, é o que as mulheres repetiam como mantra todos os dias, depois que Guta sumiu com a chuva.

E o barraco? Pra quem é que fica? Foi a próxima dúvida a que a comunidade se alardeou, pois, como iriam deixar que um estranho fosse morar ali, não, de jeito nenhum, poderia ser um marginal. E todos queriam o barraco dela. A questão era quem que era mais chegado nela. Começaram a surgir parentescos, sobrinhas, filhas até, e o barraco roxo continuava fechado, até o dia em que alguém mais assanhado tocou na maçaneta, foi o suficiente pra muitos arrombarem a porta e poucos conseguirem entrar. Como não sabiam quem era realmente parente da Guta, deixaram o barraco para as meninas que acabaram de dar a luz a bebês esfomeados e não tinham um barraco, o que também foi complicado chegar a um acordo, pois o número era grande demais, afinal o barraco só tinha dois cômodos para dormir, junto à pequena sala. Decidiram que poderiam morar cinco meninas ali. Duas em cada quarto e uma na saleta, todas com seus respectivos mancebos concebidos. Como eram mais de dez meninas, fizeram sorteio com os nomes dobrados numa caixinha, e, após muito bate-boca de acusações de que tinham colocado mais de uma vez o mesmo nome, e que era uma trapaça aquele sorteio, cinco mães adolescentes foram tomar posse do barrado de Gustava, e em nenhum momento ouvi alguém perguntar o que fariam quando, se por um acaso Guta voltasse, nenhuma palavra.

Já havia passado mais de ano, quando eu a vi àquela manhã. Vinha da feira, com sacola farta de comida. Ia no seu ritmo, com a bunda balançando na cadência de suas subidas e descidas dos seus passos. Quando finalmente alguém a avistou e gritou: “aquela gorda medonha voltou!” repetidas vezes, até a vila inteira acordar e ir ter à ruela ou pela janela mesmo. Ela, toda sorrisos, já era acostumada a ser chamada de apelidos como aquele, e se dirigia ao barraco roxo, onde umas duas mães balançavam meninos magrelos que berravam. Gustava estava bonita, com o vestido de flores amarelas e perfumada, uma visão de beleza e de felicidade por poder voltar à sua querida comunidade, depois de ter passado um tempo viajando à sua terra natal, depois de ter lido uma carta, naquele dia mesmo da chuva, que relatava o casamento de sua irmã pra dali a dois dias.
      
       Com os olhos maiores do que de costume, por tê-los arregalados à visão da primeira pedra atirada em sua direção, seguidas de dezenas de todos os tamanhos e pesos, dependia da força da pessoa. Todos jogaram pedras em Guta, que não demorou a cair junto com suas cebolas e tomates, na ruela de barro. Feito um tomate grande que estoura deixando o seu sumo escorrer se for apertado com força, Gustava deixou seu sangue escorrer pelo chão aos urros da horda que lhe aniquilava. Não pude fazer nada, minhas raízes não permitiam, estava feliz de ver Guta e triste fiquei ao vê-la morta por seus vizinhos, nada indicava que fosse acontecer tal tragédia, nada. Eu como a árvore predileta de Guta, pois fui plantada por ela ainda pequena, bem na entrada da vila e, de onde podia observar tudo e todos, não entendi o que havia acontecido. E só pude deixar minhas folhas caírem junto com o sangue de Gustava.


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