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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fumaça





Coleciono alianças de papel!
Beijo meu espelho de mim
Ludibriado pelo próprio céu.

Fumaça sólida que dura assim
Em meio a névoas de ouropel.
Faz-me dançar dores sem fim.

Elementos ilusórios embrionários
Da realidade verdadeira absoluta,
Que convive em meus brios.

Ordenho leite de pedra bruta!
Alimentos ineptos diários
Devorados por minha alegria venusta.

Se há algo de real na ilusão,
Não há verdade nem mentira,
Apenas a minha falsa visão.

Do mundo que me cerca e vira
Ao avesso numa própria prisão:
Existo apenas na minha razão.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Estranhos conhecidos

fotografias de Cristiano Melo, todos os direitos reservados






Os sentidos aguçam minha curiosidade
Quem estará por trás de tal máscara?
Melancolias abstratas numa real ansiedade

Palidez fantasiada, a rubra carne devora
Ondas de gozo refrigeram a civilidade
Confusão derrotada pela infâmia tara

Rolam-se os dados pelos dedos grossos
Tempo avassalador de probabilidades
Realidade nua por entre sonhos ditosos

Acedam-se antes que morram temeridades
Momentos lívidos de sexo, no suspense, suspensos
Amor sem meias tiras nem metades

Venha logo!




terça-feira, 2 de novembro de 2010

Realidade

De que serve estudar a realidade
Se esta não representa sua análise;
Pois que remete à relatividade
Da verdade absoluta em real lise.

Chamar de inquestionável a verdade,
Aproxima o objeto da sua frase,
Cria o sujeito da diversidade,
Flagrante que aponta a vida em estase.

Se, como exemplo, penso algo real
Realidade concreta passa a ser
A despeito de outra verdade ter.

Entretanto, ter não desmente o ver,
Ser sujeito e objeto é algo leal
Verdade absoluta não é real.



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Prateleira - amores solúveis





REPUBLICAÇÃO


Devastado na prateleira de um açougue
A formação romântica distorce a realidade
Busca frenética pra aliviar a solidão
Exposto na boutique de carnes inválidas.

Não se pode ser feliz sem estar entregue
Não se vive solitário, pura vaidade
Sentimentos torpes que não passam pelo coração
E a bunda na janela pra mãos sórdidas.

Inadequado e assustado
Dir-se-ia alma penada

Hipócrita e desleixado
Falar-se-ia carne condenada

Escolhas diversas,
Inúmeras oportunidades,
Humano engarrafado
Pasteurizado na prateleira.

Romper com o marasmo aprendido
De se apaixonar para viver
Pois estar só é o mesmo que morto
Garantir-se-ia um lampejo de consciência.

Escolhido e encolhido
Feliz e fodido...

Ou se enxerga como ser que é,
Ou pereça como carne na prateleira
Coberta de moscas esfomeadas
E o romantismo não lhe salva a alma.

Seja,
Esteja,
Só.

O coração clama
Entregue-se a ele,
Pois ninguém lhe leva flores
Além de você mesmo!
Os românticos são estéreis de sentimento.


Cristiano Melo, 14 de Maio de 2009.

sábado, 5 de junho de 2010

Realidade

De que adianta averiguar a realidade
Se esta não representa sua análise.
Ora fruto que é da verdade absoluta.
Da relatividade se espreita uma abordagem própria.

Tão pouco afirmar a persistência de inquestionável verdade,
Logra aproximação do observador ao objeto da frase,
Do contrario, não existira a diferença poluta.
A realidade se firma em si pela história.

Se penso que amar é real,
Realidade passa a ser,
Da verdade de um querer.

Entrementes, querer não legitima o ver,
Observar o objeto, no pensamento leal,
Realidades relativas no perceber como tal.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Canção da repetição

A repetição, a repetição...

Ativa negação,

Passiva relação e tantos “ãos”

Faz nascer esta canção.


Não, eu não quero seu peito

Sem leite para chupar veneno.


Não, eu não quero seu colo

Com espinhos para furar meu lenho.


Não, eu não quero sua culpa

Disfarçada de remorso cristão.


Repete anda repete

Caminha repele caminha


Choca o ovo da serpente

Aduba a erva daninha.


Acredita, é verdade, de tanto repetir

Que a realidade não vai lhe tocar.


Sim, as escolhas foram feitas

No chapisco do muro de cimento.


Sim, a cama foi desfeita

No momento da brecha pela fechadura.


Repete anda repete

Sem caminho anda e repete


Repete, anda!

E acredita na sua verdade.

Louca e demente realidade,

A mentira é a verdade.


Pura e simples,

Dura e simples.


Duelo da canção

Quem tem razão?

Realidade ou verdade?!

Acredite no que lhe couber.


Cristiano Melo, 28 de Outubro de 2009.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sonho e Realidade


O Sol fustigava o rosto do homem nu que respirava, na cama, preservativos usados, calcinhas rasgadas, restos de uma noitada. Ao tocar do telefone, pela sétima vez, o homem de ressaca procurava o aparelho por entre os cobertores, sem abrir os olhos, “tenho algo sério para lhe contar”, falava uma voz embargada do outro lado, que o homem reconhecera ser de sua irmã, “nosso pai faleceu”, e, no silêncio do minuto que se passou, que pareceram anos, o homem não respondeu, desligou o telefone e voltou a dormir e sonhou. Sonhou que, na sua infância, o pai o espancava, era alcoólatra e violento, motivo que o levou a mudar de cidade e ter a vida mundana que encenava: sem compromisso, promíscua, alcoólatra e deprimido. Acordou com um nó na garganta, de tanto cigarro da noite anterior e do sonho real que tivera. A cabeça doía tanto do álcool entornado quanto da notícia, não conseguia refletir, o quarto e a cama giravam e subiam e desciam como numa montanha-russa, vomitou. No vômito, pedaços do resto dos petiscos e da vida que levara e levava. Não parava de vomitar, quando o telefone tocou de novo, dessa vez era a voz de um homem “estou lhe esperando”, era a voz de seu pai, jogou na parede o aparelho e parou de vomitar, olhou pra cabeceira da cama, garrafas vazias, carreiras de cocaína e cartelas de psicotrópicos. Sim, o homem teve certeza, era uma “viagem torta”. Ao se levantar viu o seu corpo, e o seu pai que lhe estendia a mão o aguardava.

domingo, 26 de abril de 2009

Sentimento e Fantasia

A fragilidade do ser cria quimeras fáceis
Sonhos que acalentam o solitário ser
Ensimesmado na segurança do cobertor
Escaldado, marinado, assado e cozido!

Encontrar alguém que aparece com anéis
Confunde e encanta o alvorecer
Sentimentos precisam de tempo ou vem a dor
Ou se lançar sem chão ao desconhecido.

Da fantasia que se mostra gentil
A costumeira dificuldade em acreditar
Transformar em realidade sem apego
Acuidade intuitiva juramentada.

Sofrimento gerado pela excitação
Emoções misturadas no cerne do sentimento
Labaredas sólidas que exalam paixão.

Consumar estático o comprometimento
De querer, desejo e imaginação.
Precisa-se para um alicerce vislumbrar qualquer cimento.


Cristiano Melo, 26 de Abril de 2009.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Uma Estória Real

Fui furtado, durante um sequestro sem armas,
Sofri abusos de várias maneiras, enquanto tinha dinheiro.
O limite de meu saque eletrônico e o que tinha em bagagem,
Foi a minha soltura, após dez horas, sem arma aparente.

O que se falava e se mostrava era o que me mantinha,
Grávidas fumando crack, mulheres chorando de medo,
Homens violentos, ameaças verbais,
Um inferno dantesco e eu paralisado, sendo furtado.

Talvez nunca entenda os motivos que me deixaram ficar preso,
Talvez eu quisesse pagar o bilhete para ver o inferno,
Ou simplesmente ser plateia de teatro tão bem encenado
Que pessoas com um pouco de culpa, se deixam ser levados.

Eu fui conduzido por uma morena, ao inferno na terra,
Tive de pagar para sair, não para entrar,
Tive de me aguentar e sorrir, para não apanhar
Assistir à barbárie humana,

E eu que pensava que tinha dias difíceis,
Hoje olho para minhas cicatrizes na pele...
O que se poderia fazer diferente?
Como se pode ajudar àquelas pessoas no inferno?

Síndrome de Estocolmo?
Ou sentimento de culpa pela vida que levo
E que tentaram levar, e não deixei?!
Fui furtado, sequestrado, abusado, mas solto.

E, as marcas de tudo isto, carregarei em silêncio
Com uma pergunta muito simples:
Por que?
(silêncio dos não inocentes)


Cristiano Melo, 03 de Abril de 2009.
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