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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

"Normose"

DEDICADO A UMA CONVERSA COM O AMIGO VICTOR CALAÇA


Estendo a mão ao vazio
Nada!
Obviedades mascaradas
De uma esperança que castra.

Verbos na fala flertam
Amores dialéticos diluindo
Possibilidades
Nada!

Samba da “normose”
Alienante, inclusiva
Da sociedade farta,
Tudo!

Loucura e demência brotam
Ideias em metamorfose,
Obviedades do nada e
Tudo!

Arranca teus olhos
Ser normal,
Habitante da gruta
Seguro em nada!

Corta tua língua
“Normótico”, ao sair da fábrica.
Industrialismo de gente
Que diz tudo!

Esmaga teus ouvidos
Oh ser iludido.
Das frases dos loucos
Não te dizem nada!

Esfola tua pele
Escárnio da minoria.
Majoritário gradua
A realidade, bosta!

O sabor de perceber a dicotomia humana
Entre o nada e o tudo, é amargo e doce.
Onde estás? De um lado ao outro, barata kafkiana?
Busque mais de perto a chinela segura pelo teu pai.

Humanidade afora, pusilânimes estóicos
Retratam a eterna débil procura pelo homem
Que te ensinaria a ser um, enquanto deixas de ser
Berçário de totalitarismos, guerras e falos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Francisca


Fotografia de Alex Melo, todos os direitos reservados




Desde que Francisca saíra, um quê de impertinente indagação, marcava o rosto de Oswaldo. “Tudo bem! Ela saiu como todas as manhãs, me beijou na fronte, sorriu, e foi trabalhar”, resmungava justificando a si para tentar dissipar os questionamentos que vinham. “Mas ela saiu estranha. Tinha um brilho diferente no olhar. Deve estar trepando com alguém neste exato momento”, burilava a criativa mente de Oswaldo.

A campainha da porta o removeu daquele dilema, era alguém que pedia esmolas, “perdoe, tenho não”, respondeu batendo a porta na cara do sujeito sem pensar. Mas voltou a pensar logo em seguida, “peraí, este cara pedindo esmolas estava bem vestido, com roupas novas, barba feita, cabelo penteado. Não, não pode ser! Será?”. A dúvida agora era se o esmoléu era o amante de Chica, sangrando o lábio inferior com uma rangida de dentes, bateu na parede “porra, que merda, dando prum cara, e ele tem a audácia de vir me ver, saber como é a concorrência dele, isso é demais”, certificava sua incerteza com violência. “Ele me paga, ah se paga!”, falava consigo pelos pensamentos durante horas, estava desempregado e não havia nada para fazer além de conversar com ele próprio.

O som agudo do toque da campainha rompe o silêncio mais uma vez, e Oswaldo pega uma faca para ter à porta, atrás das costas para surpreender o infeliz amante de sua amarga sorte. “Pois não”, perguntava para o vazio, ninguém parado do lado de fora da casa de Francisca Passos, ele ainda saiu para se certificar que o amante dela não o espreitava de perto. Ninguém. “Ah, não dá, porra, agora tá de sacanagem comigo? Pois que venha com suas brincadeiras, logo logo acerto seu peito com minha faca”, alucinava Oswaldo. Desde que fora despejado de seu apartamento alugado, por uma oficiala de justiça, devido ao não pagamento ao locador, morava com sua Chica, sem nenhum problema para ele, pois logo iria estar empregado e recompensaria seu amor por aquela fina ajuda.

Já passava do meio-dia e ele comera o que tinha na geladeira de Francisca. Cochilou na rede perto da porta da casa, com a faca no chão, não largara dela o dia todo, aguardando a porta se abrir para desferir seu planejado golpe, fosse no amante ou em Chica, tanto fazia, melhor seria nos dois, foi seu último pensamento antes de pregar os olhos embalando a rede com seus pés na parede.

Acordou com o ruído de chaves na porta, era ela, pensou Oswaldo quando se levantava e já tinha a faca em sua mão direita. “Quem é você?”, foi a voz de Francisca Passos que perguntava ao ver aquele estranho em pé ao lado da rede segurando uma faca. “O que o senhor quer? O que quer que seja poderemos conversar com calma, abaixa essa faca?!”, com medo em sua voz tentava dissuadir o homem a soltar a arma, enquanto pensava se tratar de um assalto. “Sou tão compreensivo com você, te trato como uma dama e ainda tem a coragem de me perguntar quem eu sou? Você e seu amante estão querendo me deixar louco. Mas não sou e nem ficarei louco por causa de vocês!”, bradou Oswaldo ao se aproximar lentamente de sua presa, como um verdadeiro felino. Francisca Passos, oficiala de justiça que cumprira o mandado de despejo de Oswaldo o reconhecera por cima de seu terror “A-a-ah, desculpa, sei s-s-sim quem é o senhor, é que sou avoada mesmo, Oswaldo não é isso?”, balbuciou quase sem abrir a boca, ficando confuso até mesmo para ele entender o que ela dissera, enquanto se dirigia à porta para tentar fugir. Entretanto, o leão já avançava sobre sua gazela, e, ao desferir dez golpes de faca, ensanguentado gritava: “o próximo vai ser aquele tal de Locador, seu amante!”.

Morta, com laranjas ao chão misturadas ao seu sangue, o vento que soprava levando o cheiro de morte aos vizinhos e Oswaldo que jogara a faca sai pela porta limpando as mãos e seu rosto com um pano indo em direção ao metrô, “ainda dá tempo de pegar aquele sujeito, ah sim, vai dar sim!”.





sexta-feira, 5 de junho de 2009

Louco amor

-Eu te amo!

-Como?

-Eu disse: eu te amo!

-...

-Não vai falar nada?

-Tenho de falar algo?

-...

-Por que essa cara feia?

-Porque você é insensível.

-Eu? Honestamente, não sei do que você se refere...

-Eu disse “eu te amo” e você não falou nada, ficou aí com essa cara de esnobe.

-Ah! Entendi. Então é pra eu dizer algo quando me diz “eu te amo” e nos conhecemos não tem duas horas?

-Não disse? Esnobe!

-Ei, chega pra lá, não vem não, só porque diz me amar em duas horas de conversa acha que tem o direito de apertar o meu braço?

-Além de esnobe é frágil! Saco, porra: EU TE AMO!!!

-O-K, t-á, agora pode soltar um pouco o meu braço e conversamos?

-Arrogante! Caralho: EU TE AMO!

-gasp.

-Não sei o que você pensa da vida, mas sei do que você precisa, de um pouco mais de humildade, só porque me fez te amar com seu sorriso e suas idéias, acha que pode me tratar como um cara qualquer? Só porque você me tratou como um Deus, é um Deus, com suas estórias de sua vida inteira enquanto eu falava das minhas, e me trazia o café que o garçom demorou a trazer e sorria. Não, não, se me encantou assim, terá de pagar um preço.

-Por favor, não aperta mais meu pescoço, podemos conversar, e-eu te digo que t-te amo, faço o que quiser, mas não me machuca!

-Egoísta! Se preocupa só com você, e eu? Tô esfolado com meu coração sangrando, porra, EU TE AMO MUITO, nunca senti isto antes, você é foda, faz isso com todos não é? Com quantos, hein?! Tenho certeza que distribui esse sorriso pra todos e faz o mesmo que fez comigo... Eu te amo, droga.

-Que tal eu ligar o carro, e continuar até algum lugar bonito, com gente, sair daqui do meio da estrada, afinal eu te levava pra casa, lembra?

-Ainda mais essa. Agora quer me fazer sentir inferior porque tem um carro e eu não, já saquei a tua, não ama ninguém além de você, muita gente te ama: você eu e os outros, ah, os outros, fico louco só de pensar...

-Calma, a-a-m-mor, não existem outros, vou refletir sobre ser egoísta, não quer mesmo ir pra casa? Já liguei o carro, solta meu braço para eu dirigir? Hum?

-Pra quê? Pra depois de me deixar encontrar com outro? Não vai não! Eu te amo e assim vai ficar, não sairá daqui.

Deu um murro no rosto de quem disse amar, estrangulou até a morte o seu objeto de amor, saiu do carro e foi a parada de ônibus. No carro a mulher estrangulada, morreu sem saber o porquê daquilo e do que ele falava, uma vez que oferecera carona após trocar algumas palavras com o cliente da mesa ao lado onde tomava um café.


Cristiano Melo, 05 de Junho de 2009.
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