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domingo, 23 de junho de 2013

HORAS QUE SINTO FALTA DE MORAR EM BRASÍLIA





(ONTEM)
Havia uma festinha que se transformou numa boate com lasers verdes, estroboscópios, e o "escambau" lá pela meia-noite de ontem para hoje (acabou há pouco às 5:00 h) no prédio quase em frente ao que eu moro. OK, vá lá, todos temos o nosso grau de tolerância, mas "aquilo" estava alto demais, a gritaria e os gritinhos (verdadeiros urros) era demais. Tudo demais. Uma da matina resolvi ligar para o 190. Um rapaz não muito solicito me atendeu. Após ele entender o que eu estava a reclamar, pediu-me o endereço da festa.
- É na Rua Silva Jathay, entre as ruas Silva Paulet e José Vilar aqui no Meireles, e...
- Onde?
- Siva Jathay
- Referência?
- (?)
Para quem é fortalezense não conhecer tal localidade é o mesmo que não saber onde fica a W3 ou o Eixão em Brasília, ou ainda a avenida Paulista em São Paulo. (...)
- Aterro da Praia de Iracema pode ser?
Já tendo uma certa noção onde aquilo iria parar, enquanto o som tocava dentro da minha hipófise.
- Senhor preciso saber o endereço!
Com a maior calma:
- Rua Silva Jatahy entre as ruas...
- Prédio ou casa?
- Prédio.
- Número?
- Não tenho certeza, não dá pra ver, mas dá pra ouvir, venha ao meu endereço que o prédio fica do outro lado.
- Como a viatura vai saber onde fica o local?
O som de tão alto já estava dentro do aparelho de telefone celular, talvez ele até dançasse e, vai saber...
- Basta a viatura vir aqui, eu os acompanho, preciso dormir, e tem um hospital para doentes cardíacos aqui do lado, e...
Veio então o inacreditável:
- Senhor. tenha calma.
- Eu estou calmo.
- Eles estão apenas dando uma festinha, quem nunca deu uma?
- ...
- Só vai acabar com a alegria dos outros.
- ...
Pensava no absurdo e o que responder ao absurdo. Fiquei mudo.
- Senhor?
- Quero lembrá-lo que esta ligação está sendo gravada. Assim espero. Pelo menos isso. E o que você me responde é crime, igual ao daqui. Bem, como não há onde, nesta hora da madrugada, resolver nenhum dos dois. Peço gentilmente que se identifique com nome e inscrição ou que o valha da instituição a que pertence.
- Queéissomeusinhô! Calma.
- Eu estou calmo e aguardando.
- Espere um minuto, por favor.
(musiquinha irritante de espera, acho que era Djavan)
A ligação caiu.
A festa continuou.
Estou acordado desde ontem.

E, neste instante, o que mais sinto de tudo isto, é saudade de morar em Brasília.





sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Tudo bem, mas...

REPUBLICAÇÃO


- Oi!

- Tudo bem?
- Sim.
- Tudo bem mesmo?
- Claro!
- É que...
- O que?
- Nossa, por que tão ríspido? Tudo bem mesmo?
SILÊNCIO
- Você está diferente, não entendo...
- O que?
- Que foi que te fiz?
- Nada...
- Então está tudo bem, né?!
- Sim, claro que está tudo bem, porque haveria de não estar tudo bem?
- Credo, não precisa ficar bravo, não tinha a intenção de...
- De que? De vir até aqui para dizer que está tudo bem? Que eu sou um cara legal, interessante, gente boa, mas...
-Você está sendo injusto.
- Eu?
- É.
- Então tá. Vamos logo ao assunto, você vai me dizer ou não?
- Calma, vim aqui com todas as boas intenções.
SILÊNCIO
- E, depois, você é um cara muito complicado.
- É?
- É.
- Por isso o tal do "mas"?
- É... Pode ser, não sei, não me venha com essas perguntas difíceis, sabe que não gosto.
- Bem, não sei mais de nada, só sei que você me vem com esse mas... Eu não entendo a porra desse mas, semana passada era um com certeza, agora vem com mas...
- Mas...
- Mas o que? Droga!
- Assim não dá.
- Tem razão não dá, mas...
- Mas nada, vou embora.
- Mas...
- Adeus!
- Mas...
- O que?
- Mas eu gosto de você.
- Ah, querido, você sabe que eu te acho muito legal, interessante, gente boa, mas...
- Chega! Vai embora.
- Mas...
- Ok, pode parar! Não quero mais saber desse tal de "mas", vai logo embora e me deixe lamber minhas feridas.
- Tá.
Ela se foi e ele ficou devaneando sobre o que diabos queria dizer esse "mas" dela.
Não conseguiu entender nada além de que mais nada poderia ser feito, mas...





segunda-feira, 8 de novembro de 2010

(In)Diferenças




Falava ao telefone coisas que achava importantes, enquanto sua filha, do outro lado da linha, em outro estado brasileiro, mastigava o seu café:

 - E aí, quando eu tava mais perto de entender o que estava acontecendo, ela me puxou com força e me aplicou uma injeção.

- Hum.

- Apaguei na hora Martinha, nem doeu, mas doeu depois, acho que dormi por dois dias inteiros.

- Certo, certo.

- Sua mãe se viva fosse não teria deixado aquela maluca enfiar aquele troço na minha bunda, nunca vou saber o que era. Até perguntei depois, sabe?!

- Sei.

- E não me disseram patavina. Falta de respeito com gente mais velha, né Martinha?!

- Hã?

- Falei que era uma falta de respeito com os mais velhos.

- Ah pai, o senhor não é velho.

- Obrigado minha filha, mas com setenta anos não sou mais nenhum garoto, mesmo que ainda tenha minhas paqueras na rua, ha-ha-ha, sabe como é né? E nem preciso daquele azulzinho pra funcionar, elas ficam loucas comigo, pedem mais e...

- Quem pai?

- As meninas.

- Pai, você lá tem idade pra ficar atrás de meninas.

- Mas não são meninas, são as mulheres de minha geração que conheço, ficaram viúvas ou separaram e eu...

- Não é certo um velho ficar atrás de menininhas!

- Mas, eu falei que não eram... Que barulho é esse?

- Hã?

- Esse barulho, chof chof, e parece que a torneira tá aberta.

- Tô escovando os dentes, estou com pressa.

- Ah, sim. Quer que eu ligue mais tarde?

- Não pai, pro senhor estou sempre disponível, quando minha carona chegar eu aviso. Mas como eu disse antes, o senhor ainda é muito durinho, bonitão, deve ter feito um sucesso no hospital.

- Mas, Marta, você acabou de dizer que sou velho e...

- Eu? Falar que o senhor é velho? De jeito maneira. Nunca falaria isso, acho o senhor um gatão pra sua idade.

- Hum! E agora, parou de escovar os dentes, deu descarga que eu ouvi, foi descarga não foi?

- Foi.

- E que é que você tá fazendo agora que você tá falando baixinho?

- Nada!

- Tá falando com os meninos?

- Tava não, eles já estão prontos pra escola, falei só pra eles se apressarem pra não perderem a van da escola.

- Filha, deixa que eu ligo depois.

- Nã-nã-não, pó falar.

- Mas você não está me ouvindo!

- Ih, pai, já vai começar de novo? Isso já é a velhice né?! Rabugento...

- Eu rabugento, Marta?

- É!

- Mas eu tava contando sobre...

- Ô, paizinho... Desculpa, minha carona chegou, depois a gente se fala tá? Beijo. Tchau.

- Mas...

Ficou com o telefone na orelha, e ainda ouviu o bater de telefone, não sem antes escutar “bora bando de preguiçoso, teu avô já me atrasou e...” e o silêncio depois do corte da ligação. Uma lágrima escorreu pelo rosto enrugado. Baixou o aparelho no gancho, lentamente, enquanto olhava pra janela à sua frente, chovia um pouco e os pássaros se abrigavam sem cantorias. Antônio pegou então o frasco de remédios que o médico havia prescrito e tomou um comprimido, e, na mesma cama em que estava se deitou novamente. Queria dormir pra não pensar mal de sua filha. Pra não sentir raiva por ela não ter escutado nenhuma frase do que dissera. “Mas é a vida dela, ela faz muita coisa, a coitadinha, nem sei como consegue fazer tudo o que faz”, justificava o injustificável para si.

Nesse meio tempo, o telefone tocou ruidoso no quarto do apartamento de Antônio, era um vendedor de cartão de crédito. Botou o telefone no gancho sem dizer uma palavra ao moço da outra linha, tomou outro comprimido, e mais dois por garantia, com um pouco d’água do copo que ficava sempre ao seu lado junto ao porta-retratos dele, com a mulher e a filha numa praia a séculos de distância em sua memória. Fechou os olhos e os pensamentos voltaram um pouco mais lentos, mas voltaram. “Aquela ingrata insensível, não percebe que me viro sozinho em meu apartamento, ainda mando dinheiro pra faculdade do mais velho e pro cartão de crédito daquele infeliz de meu genro”, era a frase em círculos que estava fechada em sua mente. Nada pensava, além disso. A mesma frase repetida inúmeras vezes, e, cada vez mais lentas.

Algo nele começou a queimar do lado do coração, uma dor que não se explica, só se sente, levou a mão ao peito e se contorceu na cama, como numa dor insuportável e gemeu baixinho: “não, ai ai, não aguento mais isto”. Depois de cerca de uma hora, se mexeu da posição de feto em que estava, pegou a caixa de remédios, sem olhar, sem pensar, sem ouvir os pássaros que voltaram a cantar com o sol que aparecera, sem ouvir o telefone que tocava, e entornou todos os comprimidos de uma só vez, com o resto de água que ainda tinha em seu copo, fez um certo esforço para os comprimidos descerem, como não desceram todos de uma só vez, cuspiu os que ainda não haviam entrado, melados com a sua saliva e pôs um por um, goela abaixo, sem água mesmo, o que fez levar uns dez minutos pra engolir o último. Nesses dez minutos, pegou o porta-retratos atirou junto com o telefone arrancado da parede, pois era um homem forte, pela janela.

Deitou e dormiu!


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Você é de...







-Você é de direita!
-Você é de esquerda!
-Claro, eu sou a mão esquerda.
-E eu a mão direita, e o ser é destro.
-O ser é coletivo.
-Não lhe disseram que isso é passado?
-O coletivo não morre.
-Nem o individual e a sua livre iniciativa.
-Sua mão reaça!
-Ora, sua mão esquerdista, terrorista!

A Cabeça:
-Que é isso mãos, parem de brigar
-Foi ela que começou.
-Não foi ela.

As mãos direita e esquerda começaram uma guerra e o corpo não conseguiu separá-las, a cabeça assistiu a tudo sem dizer mais nada, as pernas não iam nem vinham e o ser ficou ali, paralisado, enquanto a direita e a esquerda travaram uma batalha que não levava a lugar algum, só à imobilidade.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pensamentos


―Estive pensando...

―No gerúndio?

―Não seu crítico chato!

―Desculpa, diga.

―Não consigo parar de pensar...

―Lá vem...

―Eu queria tanto parar de pensar.

―Então para, ué?!

―Mas não consigo, o pensamento fica aqui, girando, girando...

―Gerundiando?

―Humpf!

―Desculpa, desculpa, continue...

―Se eu parasse de pensar, se pelo menos não ficasse circular assim.

―Seu problema é que você pensa muito.

―Mas não é disto que estamos falando?

―...

―E não me corte com essa de gerúndio...

―Ok, ficarei escutando!

―Pois sim, seu chato, fico aqui rodando o pensamento e não chego a lugar algum.

―Não disse que você pensa muito?

―Entenda, não é pensar muito, é pensar a mesma coisa...

―Ah!

―Assim eu poderia retomar a minha vida, sabe?!

―Sei.

―Poderia voltar a fazer as coisas que gosto e não ficar aqui paralisado conversando com...

―Com quem?

―Comigo mesmo.

―Mas não somos a melhor companhia?!

―E há jeito?

―Não, só se você parasse de pensar um pouquinho...

―Tá vendo!

―O quê?

―Preciso parar pra continuar.

―Mas se parar, não para?

―Não, se eu parar de pensar, eu vou pra onde quiser.

―Quer tentar?

―Quero.

―Então comece!

...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

As Letras

A letra A, orgulhosa por ser um artigo definido que ao indicar a si mesma, vira uma poesia concreta, dialogava com outra letra que se orgulha por também gerar a mesma situação: O artigo O.

-Tenho certeza que sou mais utilizada, pois defino os substantivos de gênero feminino.

-De que adianta ser mais utilizada se eu defino os substantivos masculinos e, assim, tenho mais poder...

-Poder? Ora, faça-me o favor, isso é machismo...

-Machismo? Não! Sou realista e depois machista é você!

-Você quem disse determinar gêneros primeiro que eu...

-Ah que ladainha mais sem futuro, sou a A, começo do alfabeto e você é só o O!

-Por que sou só o O?

-Porque tá lá no meio do alfabeto...

-Mas nós dois juntos, somos os artigos definidos, você não é melhor que eu.

-Bem, podemos discutir quem é mais importante se quiser, e eu lhe provo.

-Ai que preguiça!

-É sempre assim, chamo para discutir e você foge...

-Não sou casado com você minha filha, deixa de ser chata.

-Casados? Não mesmo. Sou simplesmente melhor que você.

-Ai ai... Como é que uma letra se sente melhor que outra?

-Peraí, não traga os artigos indefinidos pra essa conversa.

-?

-Não sou “uma” letra, sou “A” letra.

-Desisto, sabe... Você é muito egocêntrica, vai lá pro começo do alfabeto vai, que é que tá fazendo por aqui no meio?

-Volto já, só quero que me dê razão?

-Dar-lhe razão? Você é chata, egocêntrica e louca...

-Sou não, ó!

-E não leva meu nome em vão!

-Mas...

-Volte já pro seu canto, o escritor já vai começar a nos agrupar.

-Quem disse que é um escritor e não uma escritora?

-Ai ai, honestamente, você já me tirou do sério, se não fosse do gênero feminino...

-Que iria fazer? Bater-me? Seu gordinho... Sua bolinha!

-Ora, não me provoque, sua pernuda.

-É tenho pernas mesmo e posso lhe esmagar.

-Chega, vou rolar em cima de você.

-Vem, seu gordo!

E a guerra dos sexos entre as letras A e O continuava, e das suas brigas violentas, surgiram manifestações de todo o alfabeto que até então estavam calados e pasmos, houve quem concordasse com A ou com O, e o alfabeto todo começou a brigar. Desta briga surge então mais um escrito, uma estória, que foi contada e recontada ao longo de eras, sobre as letras que iniciaram uma batalha, mas findaram em paz, talhadas num papel, conjugadas com as outras letras e acabou por inspirar um conto ao escritor que a tudo presenciou, na leitura quase audível desta confusão, no seu hábito de ler.

Nesse instante, sua mulher acordou e começou a argumentar que ele não fazia nada além de ler e escrever e que viajava muito no mundo das letras, que precisavam ser mais objetivos para poder viver no mundo real. Começou então uma nova discussão. E a guerra foi ouvida no mundo das letras, saíram então os mediadores, imbuídos de trazer paz a esta estória entre os mundos, literário e humano, as letras F, I e M.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Você é de...


-Você é de direita!
-Você é de esquerda!
-Claro, eu sou a mão esquerda.
-E eu a mão direita, e o ser é destro.
-O ser é coletivo.
-Não lhe disseram que isso é passado?
-O coletivo não morre.
-Nem o individual e a sua livre iniciativa.
-Sua mão reaça!
-Ora, sua mão esquerdista, terrorista!

A Cabeça:
-Que é isso mãos, parem de brigar
-Foi ela que começou.
-Não foi ela.

As mãos direita e esquerda começaram uma guerra e o corpo não conseguiu separá-las, a cabeça assistiu a tudo sem dizer mais nada, as pernas não iam nem vinham e o ser ficou ali, paralisado, enquanto a direita e a esquerda travaram uma batalha que não levava a lugar algum, só à imobilidade.

domingo, 12 de julho de 2009

A senha


-Pois não, com quem estou falando?

-Comigo!

-Sim, senhora, qual é o seu nome?

-Importa?

-Claro, esta ligação é gravada para a “sua” segurança, qual é o seu nome?

-Arminda.

-OK, e o seu CPF?

-Mas se está sendo gravada como vou deixar meu CPF gravado?

-Pra eu entrar no sistema e ver seus dados.

-Tá, então pega aí, é...

-OK, vejo que a senhora é cliente antiga, no que posso ajudar?

-Antiga? Tá me chamando de velha?

-Não, senhora Arminda, só que tem uma relação com nossa empresa já tem alguns anos.

-OK, OK...

-Mas, então, o que a senhora deseja?

-Na verdade eu desejava o Tonho, mas não vem ao caso.

-...

-É que esqueci a senha, e não consigo entrar na internet.

-Certo, senhora, confirme alguns dados por gentileza.

-Mas não já dei o número de meu CPF?

-Sim, mas a confirmação é para a “sua” segurança.

-Tá, manda.

-Qual seu endereço?

-Alameda tal, número 123, apto 456.

-Nome da sua mãe.

-Maria.

-OK, obrigado pela confirmação.

-Qual sua senha?

-Mas é justamente o que eu quero, temos senha pra tudo e não consigo guardar todas, quer fazer o favor de me dar minha senha, preciso entrar na internet por causa de meu trabalho e...

-Tudo bem senhora, para “sua” segurança estarei gerando um número de protocolo após o atendimento em que estarei lhe passando sua senha.

-Por que tanto gerúndio?

-Gerúndio? Você não quer a sua senha?

-Sim, esquece, por favor, me dá minha senha, não tenho a mínima ideia de qual seja, são tantas...

-Aguarde um momento enquanto busco no sistema.

-Ai que música chata...

APÓS ALGUNS MINUTOS

-Senhora?! Obrigado por aguardar, sua senha é...

-Sim, sim?!

-123456


Cristiano Melo, 12 de Julho de 2009.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Estado Civil

-Estado civil?

-Civil!

-Como?

-Sou civil e não militar.

-Não, não. Estado civil é se o senhor é casado, solteiro...

-Ah, então por que não perguntou logo?

-Mas eu perguntei!

-Não, a senhora perguntou se eu era civil ou militar.

-Tá, tá. E então? O senhor é casado ou solteiro?

-Junto.

-Junto?

-É, junto!

-Então o senhor é solteiro.

-Não dona, não sou solteiro, sou junto.

-...

-Qual é a próxima pergunta?

-Primeiro o senhor tem de me ajudar a preencher seu estado civil...

-Não já disse que sou civil?

-...

-Que difícil, pensei que vir aqui tirar minha identidade fosse fácil.

-E é meu senhor... Deixa eu pensar... O senhor é junto, então vou marcar solteiro, certo?

-Não, como é que vou me explicar pra minha mulher que sou solteiro?

-O senhor não precisa dizer a ela...

-Quer que eu minta agora? Já está passando o limite, dona.

-Senhor, me ajuda tá bom, a fila tá grande e...

-E o que? Esperei como todo mundo, aliás, nem queria tirar este documento, foram vocês que
pediram lá em casa.

-Certo, então vamos lá, o senhor é junto e não tenho essa opção pra marcar aqui, posso escolher pelo senhor?

-A dona tá insinuando que vai escolher outra mulher pra mim?

-Não, vou escolher seu estado civil.

-Vai me mandar ou não pras forças armadas?

-Chega! Cansei, o senhor é muito difícil, assim não consigo trabalhar, e...

-Calma dona, desculpa, tá? Não chora, marca seu X aí onde quiser, escolhe minha vida, me manda pro exército, me traz outra mulher, mas não chora...

-Também não é assim, né?! Mas tudo bem, obrigada pela consideração, passemos então a próxima pergunta.

-Tá ótimo dona, pode perguntar.

-Sexo?



Cristiano Melo, 03 de Julho de 2009.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Tudo bem, mas...

- Oi!
- Tudo bem?
- Sim.
- Tudo bem mesmo?
- Claro!
- É que...
- O que?
- Nossa, por que tão ríspido? Tudo bem mesmo?
SILÊNCIO
- Você está diferente, não entendo...
- O que?
- Que foi que te fiz?
- Nada...
- Então está tudo bem, né?!
- Sim, claro que está tudo bem, porque haveria de não estar tudo bem?
- Credo, não precisa ficar bravo, não tinha a intenção de...
- De que? De vir até aqui para dizer que está tudo bem? Que eu sou um cara legal, interessante, gente boa, mas...
-Você está sendo injusto.
- Eu?
- É.
- Então tá. Vamos logo ao assunto, você vai me dizer ou não?
- Calma, vim aqui com todas as boas intenções.
SILÊNCIO
- E, depois, você é um cara muito complicado.
- É?
- É.
- Por isso o tal do "mas"?
- É... Pode ser, não sei, não me venha com essas perguntas difíceis, sabe que não gosto.
- Bem, não sei mais de nada, só sei que você me vem com esse mas... Eu não entendo a porra desse mas, semana passada era um com certeza, agora vem com mas...
- Mas...
- Mas o que? Droga!
- Assim não dá.
- Tem razão não dá, mas...
- Mas nada, vou embora.
- Mas...
- Adeus!
- Mas...
- O que?
- Mas eu gosto de você.
- Ah, querido, você sabe que eu te acho muito legal, interessante, gente boa, mas...
- Chega! Vai embora.
- Mas...
- Ok, pode parar! Não quero mais saber desse tal de "mas", vai logo embora e me deixe lamber minhas feridas.
- Tá.
Ela se foi e ele ficou devaneando sobre o que diabos queria dizer esse "mas" dela.
Não conseguiu entender nada além de que mais nada poderia ser feito, mas...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Louco amor

-Eu te amo!

-Como?

-Eu disse: eu te amo!

-...

-Não vai falar nada?

-Tenho de falar algo?

-...

-Por que essa cara feia?

-Porque você é insensível.

-Eu? Honestamente, não sei do que você se refere...

-Eu disse “eu te amo” e você não falou nada, ficou aí com essa cara de esnobe.

-Ah! Entendi. Então é pra eu dizer algo quando me diz “eu te amo” e nos conhecemos não tem duas horas?

-Não disse? Esnobe!

-Ei, chega pra lá, não vem não, só porque diz me amar em duas horas de conversa acha que tem o direito de apertar o meu braço?

-Além de esnobe é frágil! Saco, porra: EU TE AMO!!!

-O-K, t-á, agora pode soltar um pouco o meu braço e conversamos?

-Arrogante! Caralho: EU TE AMO!

-gasp.

-Não sei o que você pensa da vida, mas sei do que você precisa, de um pouco mais de humildade, só porque me fez te amar com seu sorriso e suas idéias, acha que pode me tratar como um cara qualquer? Só porque você me tratou como um Deus, é um Deus, com suas estórias de sua vida inteira enquanto eu falava das minhas, e me trazia o café que o garçom demorou a trazer e sorria. Não, não, se me encantou assim, terá de pagar um preço.

-Por favor, não aperta mais meu pescoço, podemos conversar, e-eu te digo que t-te amo, faço o que quiser, mas não me machuca!

-Egoísta! Se preocupa só com você, e eu? Tô esfolado com meu coração sangrando, porra, EU TE AMO MUITO, nunca senti isto antes, você é foda, faz isso com todos não é? Com quantos, hein?! Tenho certeza que distribui esse sorriso pra todos e faz o mesmo que fez comigo... Eu te amo, droga.

-Que tal eu ligar o carro, e continuar até algum lugar bonito, com gente, sair daqui do meio da estrada, afinal eu te levava pra casa, lembra?

-Ainda mais essa. Agora quer me fazer sentir inferior porque tem um carro e eu não, já saquei a tua, não ama ninguém além de você, muita gente te ama: você eu e os outros, ah, os outros, fico louco só de pensar...

-Calma, a-a-m-mor, não existem outros, vou refletir sobre ser egoísta, não quer mesmo ir pra casa? Já liguei o carro, solta meu braço para eu dirigir? Hum?

-Pra quê? Pra depois de me deixar encontrar com outro? Não vai não! Eu te amo e assim vai ficar, não sairá daqui.

Deu um murro no rosto de quem disse amar, estrangulou até a morte o seu objeto de amor, saiu do carro e foi a parada de ônibus. No carro a mulher estrangulada, morreu sem saber o porquê daquilo e do que ele falava, uma vez que oferecera carona após trocar algumas palavras com o cliente da mesa ao lado onde tomava um café.


Cristiano Melo, 05 de Junho de 2009.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Água de Pia


-Pra mim?!
Perguntou Carol ao homem com quem acabara de trepar, após pedir um copo com água. Por estar numa quitinete de uns vinte metros quadrados, havia achado estranho o fato de ele ter servido água da pia, deixado o copo lá mesmo e voltado a deitar no sofá-cama, único objeto além da pia e de uma pequena estante com um filtro de água em cima.
-É...
Respondia Caetano num bocejo de quem acabara de ejacular suas vontades. Por estar em sua moradia, não se importava em ser o que era, transparente que fora ao não comunicá-la que ela era gostosa, e só.
-Já vou, tá?!
Carol, com o copo na mão, dirigiu-se a porta para sair, havia achado uma falta de educação insuportável, ter dado para aquele bosta indolente e ele lhe servir aquilo, quem ele pensava que era, mordiscou em seus pensamentos.
-Já?!
Com algo da tirana culpa penitente ocidental, não sabia ao certo porque relutara em deixá-la ir embora, ela já começava a fazer expressões estranhas na face e poderia haver alguma conversa, o que ele não queria de forma alguma, ela era gostosa, e só.
-É que tenho de dar água e comida aos meus gatos...
Respondeu sem entender porque simplesmente não saía correndo daquele local sujo e deprimente, ela que tinha uma cobertura com piscina e gatos.
-Sei, os gatos são mais importantes que...
-Você?
-É.
-Mas são
-Quem?
-Os gatos...
-O que?
-Os meus gatos são mais importantes que você!
-Ah...
Ele titubeava e queria que ela fosse embora, mas movido por qualquer coisa que não conseguira identificar, tentava demonstrar que não era um cara que só trepara com ela, sentia-se diferente dos outros, mas ela era gostosa!
-Tchau, você me liga?
Pronto, lá vinha o compromisso, pensava Caetano, que logo, deitado que estava, fechara os olhos e dissimulara leve adormecer.
-Ei!
Carol, ainda segurando o copo com a água da pia, chamou a atenção dele, que já ensaiou um pequeno ronco e não se mexeu.
Ela abriu a porta, o copo apertado entre os dedos, saiu com os olhos arregalados de raiva e desprezo. Ele continuou no seu intento de dormir.
Ela foi embora.
Ele ficara.
Bebeu a água enquanto descia as escadas que rangiam, como seus dentes, da ira despertada. A água não desceu junto com ela, e saltou numa cuspida direto ao chão, jatos de vômito a acompanharam, e Carol escorregou em seu próprio regurgito, caiu, e, antes de quebrar o pescoço, lembrou: quem vai dar água a meus gatos?

Cristiano Melo, 25 de Junho de 2008.
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