terça-feira, 30 de novembro de 2010

Papai Noel Suicida





Quando se pensa em época natalina
E Papai Noel, jamais viria à mente
Um fato cada vez mais comum como o suicídio.
Renas que carregam um trenó vazio.

Natal seria o nascimento de Jesus há mais dois mil anos
Mas, para a maioria, momento de gastar dinheiro
Perdoar quem não te respeita
E, sorrir com dentes ausentes, pra estranhos na rua.

Nada mais lógico que colocar
Papais noéis pendurados nas janelas
E sacadas dos edifícios.

Sugestão para os filhos do consumo
Indignação para quem tem olho
Quanto papai noel suicida.

Humanidades



Barras espreitam seu reflexo vão
Algazarra de livres aves soltam
Rachmaninov, sensível ao tom; brotam
Da melodia o sonho de perdão.

Em sua jaula, são, bebe café,
Há rachaduras vivas pela xícara;
A luz natural pouca mostra a cara;
Mais um cigarro em meio a sua fé.

Ter uma quitinete bem alugada,
Olhar por entre as firmes pretas grades
Esperança, café, música e guarda.

Tom solitário das grandes cidades
Enjaulados alegres na sacada:
Morfina alienada, humanidades.

domingo, 28 de novembro de 2010

Em outros Blogs

Um poema escrito por mim foi, gentilmente, reproduzido no blog da Cris Caetano, basta clicar aqui

Amor e receios

fotografia feita na varanda de meu apartamento




Ao som de um soneto de Camões adaptado por Renato Russo: Monte Castelo



Dorme amor, está de noite ainda
Nas árvores, os pássaros estão;
Dorme amor, pois o dia nunca tarda
Teus lindos olhos se abrirão então.

Noite traz sonhos em nuvem embalada
Ou pesadelos, que a própria razão
Afastará de pronto pela fada
Apaixonada e insegura, na mão.

Se vais correr de medo para mim
Quando o Sol te despertar em soluços
A dúvida me faz mais forte enfim.

Serei teu, vulnerável pelos pulsos,
inquebrável pela aliança carmim,
Receios de ambos na cama de bruços.




sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Acidente Profissional

O corte foi pequeno
Sangue brotou carmim
Do dedo do dentista

Paciente metido a garanhão
Não se sabe de sua sorte
Se é saudável ter dele um arranhão

A recepção lotada
A mente desbotada
E o tempo se esgota

Acidentes de trabalho acontecem
Todos os dias, mas com cirurgia
Há de ser ter mais cuidado

Dentista estressado
Colocou-se em risco
E, mesmo no protocolo

Ainda há o tal risco!

Agora drogas ingeridas
Enjoos repentinos e repetidos
De um dia em que a sorte foi lançada

Roleta russa à brasileira
Que lembra latejante
Seja cauteloso e não ultrapasse seus limites

Senão a bala te atinge!

Dedo cicatrizado
Medo criado
Recepção vazia

Esta é a sina de um profissional de saúde!




clique AQUI para o MANUAL DE CONDUTAS EM EXPOSIÇÃO
OCUPACIONAL A MATERIAL BIOLÓGICO do Ministério da saúde

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Carta de Abril


Ainda na perspectiva do projeto do livro "do Caos à Metrica", apresento a carta de Abril para apreciação de vocês leitores e, por favor deeem suas críticas e sugestões. Obrigado.

CARTA DE ABRIL


Não consegui ser indiferente. Até me esforcei muito em não te escrever, mas, as palavras não têm contenção, saem em jatos como um vômito. Penso demais naquela noite, como eu suspiro, quando a imagem me vem à cabeça. Suspiro. Queria te dizer tanta coisa, muitas frases represadas, um bocado de orações bem-ditas, mas a minha insegurança me impede de fazê-lo. Até pensamentos simples como: “eu gostei do que vi, cheirei, toquei, senti”, não podem tomar forma, pois, fatalmente estaria me colocando junto aos loucos! Loucos ao vento. E a minha vida me ensina a não ser um doidivanas, e sim comedido, ponderado, controlado... No entanto, devo confessar que sinto saudade do louco em mim, de ser mais honesto comigo mesmo e simplesmente admitir que me encantei contigo e que penso em ti durante o meu dia e, talvez, devido à impessoalidade da escrita, mesmo sabendo da sua completa personificação de meu eu mais íntimo, o fato de não ver teu rosto fisicamente, me deixe mais à vontade de te dizer o que eu não conseguiria falar, que gosto de ti assim e que é uma pena muito grande eu não ter “forças” para tentar te conquistar, pois o louco em mim é, por mim mesmo, amordaçado. Triste sina. De qualquer forma, não me arrependo de ter ido tão longe, como tu falaste. Para mim foi inevitável e inacreditável ao mesmo tempo. Não sei como irás reagir a este bilhete, só sei que para mim seria muito ruim não te enviar. Aliviar, um pouco que seja, o maluco apaixonado que deixaste largado em minha própria cama.

Durma bem, bom dia e boa tarde.

Beijo,

Seu doido apaixonado.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Como trabalhar Sonetos

     No post abaixo eu trouxe um exemplo, na prática, de como fica um poema depois de "adaptado" ao formato de soneto. Reparem que, mesmo alterado, não sofreu muita mudança de palavras e etc. Nos dois exemplos abaixo, do poema "VIDA E MORTE" a mudança é mais visível e mais radical.


     Para lembrar um pouco sobre as regras dos sonetos eles são estruturados em dois quartetos e dois tercetos , este sendo o mais comum, mas ainda há os sonetos estrambotos (três tercetos, muito comum no século XVII) e os sonetos ingleses (três quartetos independentes e um dístico). 


     Só para constar, me atenho mais ao chamado soneto italiano que é o mais comum (e mais fácil) risos.


     Assim, existe a MÉTRICA (Em primeiro lugar, os versos devem possuir a mesma métrica, ou seja, o mesmo número de sílabas poéticas. Uma sílaba poética é bem diferente de uma sílaba comum. Versos com dez sílabas poéticas são chamados decassílabos. Outra forma famosa de escrever são os versos alexandrinos ou dodecassílabos [doze sílabas]); 


     O POSICIONAMENTO DAS RIMAS (entrelaçadas ou opostas - ABBA, alternadas (ABAB), emparelhadas (AABB), sendo que os tercetos são mais flexíveis); 


     E a SONORIDADE: sonetos decassílabos (versos heróicos, onde as sílabas poéticas tônicas são a sexta e a décima e os versos sáficos que as sílabas poéticas tônicas são a quarta, aoitava e a décima sílabas), sonetos dodecassílabos (versos alexandrinos possuem a quarta, a oitava e a décima-segundasílaba poética como sílabas fortes, ou a sexta, a décima e a décima-segunda).


POEMA SEM SER ADAPTADO A UM SONETO DECASSÍLABO DE RIMAS EMPARELHADAS COM SONORIDADE HERÓICA:





Vida e Morte

A bruma densa em que se encobrem os tesouros
Não poderia ter luz mais forte para encontrá-los
Que a própria vida, a existência na insistência
De viver a busca incessante do dourado sagrado.

Não se lhe dá de graça, pela sua graça
Espia por entre a bruma o esperado
Guarda firme o precioso encontrado
Continua a procura de mais da vida esparsa.

Se de cansaço senta e esquece
Diligente esteja para não seres roubado
Pois de vida vivem os vampiros.

Coragem! A mudança não fenece
Mosaico de tua vida untado
A morte te vê por entre os espinhos.


DEPOIS DE TRABALHADO:



A bruma densa que encobre tesouros
Confunde o ser na sua busca por ouros,
Da lida persistente em sua existência:
Para viver há de se ter paciência.

Não se lhe dá de graça como touros
Tateantes por entre a bruma de couros;
Encontrar um tesouro requer ciência
E uma contínua busca com insistência.

Se de cansaço assenta e adormece,
Atento fique para que não veja
A morte que se move e lhe conhece.

Coragem! A mudança não peleja
Destruir sua vida sem nenhuma prece,
Mesmo que a morte lhe brilha e deseja.





Cortejo

Trabalhar um poema para que este siga as regras de um soneto, não é trabalho fácil. Aqui trago um exemplo de um poema escrito de maneira livre e, o mesmo (?) poema depois de trabalhado com as regras do soneto, métrica e sonoridade. Comparem e percebam a diferença e o trabalho que dá. Risos. UFA!


SONETO


Citar belezas ditas em cortejo
Fixar olhares de desencontrados
Dedicar mocorós adocicados
Suspirar queimadas de sertanejo.

Afagar a mão na faceta crespa
Beijar a boca com a boca tesa
Seduzir gotas de suor em festa
Somar doce à leveza honesta.

Em tua fantasia mais cortês
Seria quase fácil tal feitio
Se este a que vos estende teso o verbo

Não achasse tudo isto soberbo.
O cortejo há de fazer plantio
Sem rosas falsas num talo burguês.


POEMA SEM SER TRANSFORMADO EM SONETO:

Citar belezas ditas em cortejo
Fixar olhares desencontrados
Dedicar poemas adocicados
Suspirar queimadas de sertanejo.

Afagar a mão na face crespa
Beijar a boca com a boca tesa
Seduzir gotas de suor em festa
Reunir o doce com a leveza honesta.

Seria fácil tal feitio
Em teu seio mais bravio
Se este a que vos estende o verbo

Não achasse tudo isto soberbo.
O cortejo natural há de ser plantio
Sem rosas falsas num caminho deserto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Homo sapiens

Foi-te ignorante daquela cidade,
Retornou uma gorda de ideias obtusas
Para a verdade questionar.

Estúpida mordaça arregaçada da idade,
Mostra a saliva podre de escusas
Da realidade não questionar.

És burra, idiota, energúmena e acéfala.
Arranca logo estes olhos que não te servem,
Enfia uma faca neste peito sem graça.

E não é que a frívola sorte tola,
Carrega-te ao teu gato de desdém?!
Dois tolos a mosquear na desgraça.

Felizardos os que não vos acompanha
Nesta campanha azeda da realidade humana,
Que são, em fato, quase ninguém.

Pois a humanidade é o próprio espelho desta sanha.
Verdade absoluta não é realidade insana
Mas é ilusão de outrem.

Salvem o Homo sapiens da extinção!

domingo, 21 de novembro de 2010

Poema Interrompido




Busca-se a definição do que vem a ser o amor:
Está nas pétalas da rosa vermelha,
Nas nuvens que brincam de formar desenhos,
No sorriso banguela do bebê encantado?

Eu, nesta busca, como tantos sedentos
Por definir aquilo que nos leva a sofrer
A cantarolar, a bater a cabeça na parede,
Mas afinal, alguém consegue definir?

INTERROMPIDO
(pelo AMOR em si)


sábado, 20 de novembro de 2010

Poema Alegre




Ordálio atualizado sem esperança,
Pornofobia sem entardecer,
Pobre tristimania na cabeça,
Poema triste não faz transcender.

Porém, não és tua própria desgraça.
Variados poetas a te entreter
Fora da aleivosia em sua crença,
Alegria ao poeta que descer.

Demiúrgicos vivos pelas letras
Deveriam dar as mãos em falsete,
Os versos leves não serão penetras.

Invadirão papéis, tido confete,
Como carnavais de palcos e gretas:
Poesia assumida de alegrete.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Poema Triste

Amor à primeira vista existe,
A correspondência é que não!
De dentro puxei um poema triste
E dele fiz uma bela canção.

Ouvi agrados que me deste
Na alegria daquela paixão.
Deixei-me crer inconteste.
Percebi tarde, era pura solidão.

Do amor que poderia cantar,
Do poema triste que virou melodia,
Não sobrou nada para consolar.

Chorava a paixão derretida de dia,
Enxugava as lágrimas com o penar.
Não sobrou nada, além desta triste poesia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Meu diário



Hoje, eu trago uma outra maneira caótica de escrita, no meu entendimento, a escrita em um diário ou agenda. Como as cartas, escrever em agendas como se fazia antigamente, cada vez mais cai em desuso, devido a utilização de blogs e outros sítios para esta escrita. Assim, assume mais um caráter de mostrar aos outros do que refletir os seus pensamentos mais caóticos, a ponto de ser indesejável que alguém lhe pegasse a agenda para ler. Pensando nisso, como no projeto de meu próximo livro, trago esta escrita de diário. Como no "Carta de Janeiro", esta escrita em diário é ficcional, mas obviamente há um quê de mim, de minhas estruturas de conhecimento e leituras da vida. Portanto, segue o "MEU DIÁRIO":




Hoje, eu me sinto mais assustado que o usual. Estou temendo a vida, e, já nem sei se consigo fazê-lo, viver, ou morrer que seja. Simplesmente não sei.

Hoje, sinto a vida, cada movimento do ponteiro no relógio de minha existência que escorre em mim. Sinto toda a respiração de meu corpo e é doído, pois é sentido! Uma espécie de dor na alma, que não sei como pará-la, estancá-la, ou qualquer outro verbo que a faça sumir, a dor. E ela fica.

Hoje, não sei o que fazer para sanar, repousar este meu guerreiro que cansa aqui dentro em um lugar tão distante, quanto profundo, um lugar que só eu posso penetrar. Não sei, simples assim, não sei!

E, agora, me pego aqui neste pedaço de papel, desabafando comigo enquanto escrevo estas palavras desconexas, que me diminui a dor de respirar ao permitir que as coisas abrandem, suavizem, aos poucos, em cada letra desenhada neste espaço branco que já foi uma árvore, mas não por completo. A dor ainda doi.

Sei não! Tenho sofrido por tantos anos e não sei como parar com isto. Até sei e conheço e tenho alguns recursos para minimizar tais sensações: correr, me exercitar, meditar prestando atenção especial à respiração (até que as águas revoltas da mente possam se tornar um oceano tranquilo), terapias psicanalíticas, terapias alternativas, alopatias, homeopatias e etc. Mas ainda não é suficiente, a dor continua lá, naquele lugar onde só eu posso adentrar, meu eu interior e profundo, onde estão meus esqueletos e máculas da vida, onde trancafiei meus monstros e demônios, onde há luz e água limpa em abundância.

Um desejo, neste instante, me vem. Quando uso desta tática de escrever no papel, para encontrar equilíbrio, quero poder ser feliz, este é o desejo. Mas é claro que compreendo que não se consegue ser feliz, não é um estado perene, a felicidade, muito menos a tristeza. Então a minha vontade é inepta, no entanto posso buscar o estar feliz e aceitar o estar triste, nesta troca de energias que talvez sejam necessárias para manter a mente em equilíbrio.

Entretanto, hoje, eu estou cansado, muito cansado. Diria exausto. Cansado de aceitar a vida como ela se apresenta a mim, nesta humanidade injusta e fria, nesta humanidade desumana! Onde foi parar o Amor? Onde caminha a Compaixão? Onde se esconde a Solidariedade? Não sei a resposta, ou talvez até saiba, mas meu narcisismo masoquista não me permite enxergar por entre as brumas, algo que está lá, sempre esteve. Lá.

Cada minuto debruçado em meu autodesabafo, é um passo para a minha aquietação, minhas batidas de coração já retornaram ao normal, e a dor já não doi tanto. O tempo.
Sim, o tempo, porque não pensei nisso antes? Todos dizem: “espere um pouco que passa. Tudo passa.”,” nada como um dia atrás do outro”, “calma, o tempo é o senhor de tudo” e etc. E, de fato, hoje, o ponteiro de meu relógio interno se mostrou firme, não aquiesceu nem um segundo sequer, nem na minha dor, nem quando esta sumia. Ele, o tempo, sempre está aqui. Aqui e acolá. Talvez seja uma das únicas verdades absolutas, o tempo, até que algum físico consiga criar uma teoria na qual dobre o tempo, este permanece em seu mundo, seu reino. E, eu e todos os outros estamos à sua mercê. Não adianta espernear se perdeu o emprego, se a sua namorada o deixou, se sua saúde o levou a uma UTI, se seu melhor amigo acabou de falecer, nada. Só o tempo existe.

Então, minha última divagação por hoje, uma vez que já estou pronto para caminhar novamente, é a seguinte: se só o tempo existe de fato, por sobre todo e qualquer sentimento, então tudo é uma ilusão, realidades criadas num universo inexistente. Respirar é um fato, mas também é uma ilusão quando se altera, é ilusão refletir tanto sobre descidas ao eu profundo, buscar autoconhecimento, ser mais consciente, ficar triste com a desumanidade, pois tudo é irreal e ilusório.

Vou caminhar. Minha ilusão não pode esperar pelo Tempo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Gustava


Há tempos não via aquela bunda, rebolando faceira, por dentro daquele vestido florido, as mesmas flores amarelas de sempre, próximas a folhas de temperos e hortaliças, que roçavam em seu pano puído. Passava com aquele perfume forte pra uma manhã em que até os pássaros, preguiçosos, davam os primeiros sinais de que o Sol surgia na cidade.

Onde andaria Gustava que simplesmente desaparecera sem se despedir da vila? Alguns se perguntavam do porque de não ter se despedido, ela era sempre tão gentil, ajudava todo mundo, cozinhava bem e todo mundo sempre se fartava na bóia da Gustava, quase todo dia. Pra falar a verdade, era todo dia, variava apenas um ou outro vizinho, mas Gustava adorava ficar nas panelas, suada, com aquela fumaça toda, os cheiros, o chão engordurado, as visitas que beijavam seu rosto ensebado. Mas, antes de todos comerem, a corpulenta mulher tomava seu banho e voltava com aquele perfume forte, o de sempre. Refestelavam-se logo que Gustava pegava na colher, era uma comedeira, bebedeira, balbúrdia alegre e encantada para quem comia daqueles pratos de tempero maravilhosos, e tinha pra todos os gostos, peixe, carne, frango, feijoada, farofa, pirão, era sempre farto, sempre.

Recordo que foi num dia chuvoso, que percebi as primeiras pessoas se amontoando ao meio-dia na porta do barraco de Gustava. Lembro que era chuvoso, pois na vila quando caía muita água, o rio próximo transbordava e a molecada não ia pra escola pra ficar tomando banho de rio, que eram as vielas da vila, e, mesmo com o rio barrento, havia pessoas que aguardavam à porta fechada de Guta, criando uma imagem difícil de esquecer, a enxurrada acima dos joelhos, já nos quadris, e como em fila de banco, alguns começavam a reclamar da demora. E, ela não apareceu. A porta continuou trancada.

Passou-se alguns meses até não se formar mais fila alguma naquele barraco de compensado vermelho, pintado de roxo. E nem sinal da enorme mulher. Não demorou para que as teorias surgissem, pois ela era, além de fisicamente incomparável, alta, gorda, negra e sorriso aberto, largo sob olhos enormes de bolas avermelhadas e manca, era a vizinha mais gentil e dedicada da vila. Além da comilança, sempre disponível para dar seu colo divã para quem precisava chorar, e ela enrolava os cabelos da pessoa e não dizia nada enquanto choravam até molhar suas pernas de lágrimas. Parecia até consultório psicológico, pois de hora em hora, Gustava nunca soube, chegava sempre um, após as três da tarde, quando acabara de lavar a pilha de panelas e pratos do almoço, eles chegavam, um a um, sempre.

Das teorias que surgiram, nenhuma passava nem perto de ela ter conhecido alguém e fugira para viver uma vida de amor carnal, ela era uma santa, como santos podem ter relacionamentos afetivos? Nem passava pela cabeça do mais ousado da vila, ainda mais porque ela era o que era, quem iria querer ter alguma coisa com aquela mulher parecida saída das portas dos infernos? É o que se perguntavam os moradores da vila. Impossível, eram taxativos, jamais Gustava iria deixá-los por causa de namoricos, imagine! Se ela fosse trepar com alguém quebrava a cama, relinchavam os mais novos. Quem conseguiria abraçar aquele tribufu, era a questão no bar da esquina. Ela era feia de doer, ainda bem que foi embora, ninguém aguentava ver aquela bundona rebolando manca pela vila, é o que as mulheres repetiam como mantra todos os dias, depois que Guta sumiu com a chuva.

E o barraco? Pra quem é que fica? Foi a próxima dúvida a que a comunidade se alardeou, pois, como iriam deixar que um estranho fosse morar ali, não, de jeito nenhum, poderia ser um marginal. E todos queriam o barraco dela. A questão era quem que era mais chegado nela. Começaram a surgir parentescos, sobrinhas, filhas até, e o barraco roxo continuava fechado, até o dia em que alguém mais assanhado tocou na maçaneta, foi o suficiente pra muitos arrombarem a porta e poucos conseguirem entrar. Como não sabiam quem era realmente parente da Guta, deixaram o barraco para as meninas que acabaram de dar a luz a bebês esfomeados e não tinham um barraco, o que também foi complicado chegar a um acordo, pois o número era grande demais, afinal o barraco só tinha dois cômodos para dormir, junto à pequena sala. Decidiram que poderiam morar cinco meninas ali. Duas em cada quarto e uma na saleta, todas com seus respectivos mancebos concebidos. Como eram mais de dez meninas, fizeram sorteio com os nomes dobrados numa caixinha, e, após muito bate-boca de acusações de que tinham colocado mais de uma vez o mesmo nome, e que era uma trapaça aquele sorteio, cinco mães adolescentes foram tomar posse do barrado de Gustava, e em nenhum momento ouvi alguém perguntar o que fariam quando, se por um acaso Guta voltasse, nenhuma palavra.

Já havia passado mais de ano, quando eu a vi àquela manhã. Vinha da feira, com sacola farta de comida. Ia no seu ritmo, com a bunda balançando na cadência de suas subidas e descidas dos seus passos. Quando finalmente alguém a avistou e gritou: “aquela gorda medonha voltou!” repetidas vezes, até a vila inteira acordar e ir ter à ruela ou pela janela mesmo. Ela, toda sorrisos, já era acostumada a ser chamada de apelidos como aquele, e se dirigia ao barraco roxo, onde umas duas mães balançavam meninos magrelos que berravam. Gustava estava bonita, com o vestido de flores amarelas e perfumada, uma visão de beleza e de felicidade por poder voltar à sua querida comunidade, depois de ter passado um tempo viajando à sua terra natal, depois de ter lido uma carta, naquele dia mesmo da chuva, que relatava o casamento de sua irmã pra dali a dois dias.
      
       Com os olhos maiores do que de costume, por tê-los arregalados à visão da primeira pedra atirada em sua direção, seguidas de dezenas de todos os tamanhos e pesos, dependia da força da pessoa. Todos jogaram pedras em Guta, que não demorou a cair junto com suas cebolas e tomates, na ruela de barro. Feito um tomate grande que estoura deixando o seu sumo escorrer se for apertado com força, Gustava deixou seu sangue escorrer pelo chão aos urros da horda que lhe aniquilava. Não pude fazer nada, minhas raízes não permitiam, estava feliz de ver Guta e triste fiquei ao vê-la morta por seus vizinhos, nada indicava que fosse acontecer tal tragédia, nada. Eu como a árvore predileta de Guta, pois fui plantada por ela ainda pequena, bem na entrada da vila e, de onde podia observar tudo e todos, não entendi o que havia acontecido. E só pude deixar minhas folhas caírem junto com o sangue de Gustava.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Chica Bum






La Chica Bum



Quando entro em casa
O pulo é garantido
Patas que sujam o resto da roupa

Ao tomar banho
Espera fora do banheiro
Pra mais um pulo escorado

Ao fazer o jantar
Não sai de perto
Devora pedaços caídos

Sua vez de jantar
E só come assistida
Afago que dou na querida

Hora da leitura antes de dormir
Vai pra caminha ao meu lado
E ronca antes de mim

Chica Bum é o seu nome
Minha vida mudou com ela
Alegria de vê-la, minha cadela

domingo, 14 de novembro de 2010

Esperança

Num sussurro
Ouço a sua batida
Cada vez mais forte

Regala o fogo do peito
Guarnecido apagado há tempos
Bastou um lampejo, um realejo

Já não se furtava da realidade
Esbaldava-se na solidão de muitos
Corria insone e ansioso sem rumo

Eis que a vida lhe joga no colo
Algo tão forte quanto o que removera
Surge mais uma vez, o anjo da esperança


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Depressão








É uma dor pela alma conhecida

Humano algum consegue sua paz
Nem pelo especialista mais perspicaz
Ou pela curandeira mais citada.


Cedro frondoso com raiz intacto
Fenece à trepadeira maliciosa;
Garra dentada que espreita ambiciosa
Via estreita e insólita do fato.

Consome da alma o último suspiro;
Leva os mais fortes ao salto implacável;
Susurra leve ao mais fraco o seu tiro.

Sobra ao são lhe tornar um ser viável,
Curado o louco sem nenhum retiro;
Funcional, não sem dor, hoje saudável.







Para maiores detalhes sobre depressão clique aqui



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Estranhos conhecidos

fotografias de Cristiano Melo, todos os direitos reservados






Os sentidos aguçam minha curiosidade
Quem estará por trás de tal máscara?
Melancolias abstratas numa real ansiedade

Palidez fantasiada, a rubra carne devora
Ondas de gozo refrigeram a civilidade
Confusão derrotada pela infâmia tara

Rolam-se os dados pelos dedos grossos
Tempo avassalador de probabilidades
Realidade nua por entre sonhos ditosos

Acedam-se antes que morram temeridades
Momentos lívidos de sexo, no suspense, suspensos
Amor sem meias tiras nem metades

Venha logo!




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Visitas



Fotografia de Alex Melo, todos os direitos reservados



Quando tu vieste
Pensei que não fosses
Quando tu saíste
Pensei que não voltasses.

Se um dia me levares
Acorrentado ao meu banco
Não me tragas de volta

Se uma noite não me procuras
Deitado em sono profundo
Não me acordes e me deixes

De tudo que posso ter apreendido
É que não adianta não te querer
Tu vens quando bem quiseres
Fazes o que bem entenderes

E eu, uma marionete em suas mãos sem dedos.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

(In)Diferenças




Falava ao telefone coisas que achava importantes, enquanto sua filha, do outro lado da linha, em outro estado brasileiro, mastigava o seu café:

 - E aí, quando eu tava mais perto de entender o que estava acontecendo, ela me puxou com força e me aplicou uma injeção.

- Hum.

- Apaguei na hora Martinha, nem doeu, mas doeu depois, acho que dormi por dois dias inteiros.

- Certo, certo.

- Sua mãe se viva fosse não teria deixado aquela maluca enfiar aquele troço na minha bunda, nunca vou saber o que era. Até perguntei depois, sabe?!

- Sei.

- E não me disseram patavina. Falta de respeito com gente mais velha, né Martinha?!

- Hã?

- Falei que era uma falta de respeito com os mais velhos.

- Ah pai, o senhor não é velho.

- Obrigado minha filha, mas com setenta anos não sou mais nenhum garoto, mesmo que ainda tenha minhas paqueras na rua, ha-ha-ha, sabe como é né? E nem preciso daquele azulzinho pra funcionar, elas ficam loucas comigo, pedem mais e...

- Quem pai?

- As meninas.

- Pai, você lá tem idade pra ficar atrás de meninas.

- Mas não são meninas, são as mulheres de minha geração que conheço, ficaram viúvas ou separaram e eu...

- Não é certo um velho ficar atrás de menininhas!

- Mas, eu falei que não eram... Que barulho é esse?

- Hã?

- Esse barulho, chof chof, e parece que a torneira tá aberta.

- Tô escovando os dentes, estou com pressa.

- Ah, sim. Quer que eu ligue mais tarde?

- Não pai, pro senhor estou sempre disponível, quando minha carona chegar eu aviso. Mas como eu disse antes, o senhor ainda é muito durinho, bonitão, deve ter feito um sucesso no hospital.

- Mas, Marta, você acabou de dizer que sou velho e...

- Eu? Falar que o senhor é velho? De jeito maneira. Nunca falaria isso, acho o senhor um gatão pra sua idade.

- Hum! E agora, parou de escovar os dentes, deu descarga que eu ouvi, foi descarga não foi?

- Foi.

- E que é que você tá fazendo agora que você tá falando baixinho?

- Nada!

- Tá falando com os meninos?

- Tava não, eles já estão prontos pra escola, falei só pra eles se apressarem pra não perderem a van da escola.

- Filha, deixa que eu ligo depois.

- Nã-nã-não, pó falar.

- Mas você não está me ouvindo!

- Ih, pai, já vai começar de novo? Isso já é a velhice né?! Rabugento...

- Eu rabugento, Marta?

- É!

- Mas eu tava contando sobre...

- Ô, paizinho... Desculpa, minha carona chegou, depois a gente se fala tá? Beijo. Tchau.

- Mas...

Ficou com o telefone na orelha, e ainda ouviu o bater de telefone, não sem antes escutar “bora bando de preguiçoso, teu avô já me atrasou e...” e o silêncio depois do corte da ligação. Uma lágrima escorreu pelo rosto enrugado. Baixou o aparelho no gancho, lentamente, enquanto olhava pra janela à sua frente, chovia um pouco e os pássaros se abrigavam sem cantorias. Antônio pegou então o frasco de remédios que o médico havia prescrito e tomou um comprimido, e, na mesma cama em que estava se deitou novamente. Queria dormir pra não pensar mal de sua filha. Pra não sentir raiva por ela não ter escutado nenhuma frase do que dissera. “Mas é a vida dela, ela faz muita coisa, a coitadinha, nem sei como consegue fazer tudo o que faz”, justificava o injustificável para si.

Nesse meio tempo, o telefone tocou ruidoso no quarto do apartamento de Antônio, era um vendedor de cartão de crédito. Botou o telefone no gancho sem dizer uma palavra ao moço da outra linha, tomou outro comprimido, e mais dois por garantia, com um pouco d’água do copo que ficava sempre ao seu lado junto ao porta-retratos dele, com a mulher e a filha numa praia a séculos de distância em sua memória. Fechou os olhos e os pensamentos voltaram um pouco mais lentos, mas voltaram. “Aquela ingrata insensível, não percebe que me viro sozinho em meu apartamento, ainda mando dinheiro pra faculdade do mais velho e pro cartão de crédito daquele infeliz de meu genro”, era a frase em círculos que estava fechada em sua mente. Nada pensava, além disso. A mesma frase repetida inúmeras vezes, e, cada vez mais lentas.

Algo nele começou a queimar do lado do coração, uma dor que não se explica, só se sente, levou a mão ao peito e se contorceu na cama, como numa dor insuportável e gemeu baixinho: “não, ai ai, não aguento mais isto”. Depois de cerca de uma hora, se mexeu da posição de feto em que estava, pegou a caixa de remédios, sem olhar, sem pensar, sem ouvir os pássaros que voltaram a cantar com o sol que aparecera, sem ouvir o telefone que tocava, e entornou todos os comprimidos de uma só vez, com o resto de água que ainda tinha em seu copo, fez um certo esforço para os comprimidos descerem, como não desceram todos de uma só vez, cuspiu os que ainda não haviam entrado, melados com a sua saliva e pôs um por um, goela abaixo, sem água mesmo, o que fez levar uns dez minutos pra engolir o último. Nesses dez minutos, pegou o porta-retratos atirou junto com o telefone arrancado da parede, pois era um homem forte, pela janela.

Deitou e dormiu!


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