quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Meu diário



Hoje, eu trago uma outra maneira caótica de escrita, no meu entendimento, a escrita em um diário ou agenda. Como as cartas, escrever em agendas como se fazia antigamente, cada vez mais cai em desuso, devido a utilização de blogs e outros sítios para esta escrita. Assim, assume mais um caráter de mostrar aos outros do que refletir os seus pensamentos mais caóticos, a ponto de ser indesejável que alguém lhe pegasse a agenda para ler. Pensando nisso, como no projeto de meu próximo livro, trago esta escrita de diário. Como no "Carta de Janeiro", esta escrita em diário é ficcional, mas obviamente há um quê de mim, de minhas estruturas de conhecimento e leituras da vida. Portanto, segue o "MEU DIÁRIO":




Hoje, eu me sinto mais assustado que o usual. Estou temendo a vida, e, já nem sei se consigo fazê-lo, viver, ou morrer que seja. Simplesmente não sei.

Hoje, sinto a vida, cada movimento do ponteiro no relógio de minha existência que escorre em mim. Sinto toda a respiração de meu corpo e é doído, pois é sentido! Uma espécie de dor na alma, que não sei como pará-la, estancá-la, ou qualquer outro verbo que a faça sumir, a dor. E ela fica.

Hoje, não sei o que fazer para sanar, repousar este meu guerreiro que cansa aqui dentro em um lugar tão distante, quanto profundo, um lugar que só eu posso penetrar. Não sei, simples assim, não sei!

E, agora, me pego aqui neste pedaço de papel, desabafando comigo enquanto escrevo estas palavras desconexas, que me diminui a dor de respirar ao permitir que as coisas abrandem, suavizem, aos poucos, em cada letra desenhada neste espaço branco que já foi uma árvore, mas não por completo. A dor ainda doi.

Sei não! Tenho sofrido por tantos anos e não sei como parar com isto. Até sei e conheço e tenho alguns recursos para minimizar tais sensações: correr, me exercitar, meditar prestando atenção especial à respiração (até que as águas revoltas da mente possam se tornar um oceano tranquilo), terapias psicanalíticas, terapias alternativas, alopatias, homeopatias e etc. Mas ainda não é suficiente, a dor continua lá, naquele lugar onde só eu posso adentrar, meu eu interior e profundo, onde estão meus esqueletos e máculas da vida, onde trancafiei meus monstros e demônios, onde há luz e água limpa em abundância.

Um desejo, neste instante, me vem. Quando uso desta tática de escrever no papel, para encontrar equilíbrio, quero poder ser feliz, este é o desejo. Mas é claro que compreendo que não se consegue ser feliz, não é um estado perene, a felicidade, muito menos a tristeza. Então a minha vontade é inepta, no entanto posso buscar o estar feliz e aceitar o estar triste, nesta troca de energias que talvez sejam necessárias para manter a mente em equilíbrio.

Entretanto, hoje, eu estou cansado, muito cansado. Diria exausto. Cansado de aceitar a vida como ela se apresenta a mim, nesta humanidade injusta e fria, nesta humanidade desumana! Onde foi parar o Amor? Onde caminha a Compaixão? Onde se esconde a Solidariedade? Não sei a resposta, ou talvez até saiba, mas meu narcisismo masoquista não me permite enxergar por entre as brumas, algo que está lá, sempre esteve. Lá.

Cada minuto debruçado em meu autodesabafo, é um passo para a minha aquietação, minhas batidas de coração já retornaram ao normal, e a dor já não doi tanto. O tempo.
Sim, o tempo, porque não pensei nisso antes? Todos dizem: “espere um pouco que passa. Tudo passa.”,” nada como um dia atrás do outro”, “calma, o tempo é o senhor de tudo” e etc. E, de fato, hoje, o ponteiro de meu relógio interno se mostrou firme, não aquiesceu nem um segundo sequer, nem na minha dor, nem quando esta sumia. Ele, o tempo, sempre está aqui. Aqui e acolá. Talvez seja uma das únicas verdades absolutas, o tempo, até que algum físico consiga criar uma teoria na qual dobre o tempo, este permanece em seu mundo, seu reino. E, eu e todos os outros estamos à sua mercê. Não adianta espernear se perdeu o emprego, se a sua namorada o deixou, se sua saúde o levou a uma UTI, se seu melhor amigo acabou de falecer, nada. Só o tempo existe.

Então, minha última divagação por hoje, uma vez que já estou pronto para caminhar novamente, é a seguinte: se só o tempo existe de fato, por sobre todo e qualquer sentimento, então tudo é uma ilusão, realidades criadas num universo inexistente. Respirar é um fato, mas também é uma ilusão quando se altera, é ilusão refletir tanto sobre descidas ao eu profundo, buscar autoconhecimento, ser mais consciente, ficar triste com a desumanidade, pois tudo é irreal e ilusório.

Vou caminhar. Minha ilusão não pode esperar pelo Tempo.

5 comentários:

  1. Cristiano, belo texto, mesmo que um desabafo espontâneo. Tenho tido alguns sentimentos parecidos em relação à humanidade. A cada dia que passa tenho vontade de mudar de planeta e encontrar um que acho que só existe em meus sonhos.
    Contudo, há muitas pessoas boas por aí. Uma hora ou outra topamos com uma delas e, então, nossa vida está arrumada! Torço para que isso aconteça em breve com você.
    Beijo,
    Andrea

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  2. Cristiano, gosto muito da chamada literatura "epistolar", das cartas, diários, dos desabafos. Lalo Arias faz isso muito bem. Já leu algumas das "Cartas a Naima"? Eu gosto muito muito. E adorei teu texto. Viver é mesmo uma barra meu amigo. beijos.

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  3. Confesso que sinto falto dos bons tempos de diário. Era um escape, um grito silencioso, sei lá...

    Mas a gente encontra, enfim, outros caminhos para não deixar o Tempo senhor de tudo...

    Bela escrita. O caos não é de um todo negativo, não é mesmo?

    Abraços, querido!

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  4. Oi Cris,
    Conheço bem essa dor, essa inquietação da alma...Convivo com ela desde sempre, as vezes acalma, as vezes volta forte como nunca...Felizmente temos como expressa-la e, sem dúvida, este é nosso trunfo. Transformar a dor em poesia!

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  5. Minhas queridas comentaristas, não teve nenhum do sexo masculino, agradeço os comentários e escrever em agenda dá saudades, não?!
    Acredito que muitos de nós, começamos pela agenda até chegar aqui, na "loucura" da poesia!

    Andrea, sim, há pessoas em meio a desumanidade, mas não podemos confundir, senão o sofrimento é garantido!

    Nydia, ainda não li, e já coloquei na minha lista para ler, obrigado pela dica. Viver é uma barra intangível que tem peso.
    :)

    Moni, sem o caos o mundo não seria o que é. Gosto dele e o compreendo, quem acredita em um mundo sem caos? Só um "maluco" de verdade.rs

    Cris, não tenho nada a acrescentar ao seu comentário, é o que sinto também e entendo perfeitamente o que quis dizer.


    beijos a todas

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