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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Fina linha

Linha tênue que separa
o novo do velho,
o vivo do morto,
e o espírito da alma.

Linha grossa encontra um verso
ou o verso encontra uma linha grossa
não importa! O que é importante
Está guardado, aguardando.

E eu me resto aqui sonolento,
quase indo para minha choupana,
onde não entra ninguém,
nem o galo pra acordar o dia.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Jaula privada




Leão de fogaréu flamejante
Aguarda complacente sua hora.
Presa inerte e passiva ali diante
Rugido algum faria ir embora.

Gazela despelada ainda vê,
Pois os olhos lhe foram preservados,
Não havendo terror ia correr...
Dentes em chamas, na boca, cerrados.

Predador não teria chance alguma
Se o pavor ali não fosse anormal;
Bastaria abrir uma porta, uma!

E a vida voltaria a ser igual
O medo dissipado numa bruma;
No entanto é só um sonho tolo e irreal. 



domingo, 27 de abril de 2014

Meu poema, minha verdade




Não é que a culpe por ter me deixado triste
a ponto de cortar os pulsos em vão
não

Não é que te telefonar com alegria e entusiasmo
acarrete nas palavras de desestímulo de sempre
nada disso

Da vez que me entupi de barbitúricos
quando não encontrava saída para a dor
infligida na alma e fui parar numa UTI
não teve nenhuma ajuda de tua parte
a tal fim, uma vez que falas apenas a verdade

Não mesmo

A coerência social nos ensina veemente que a escolha
e responsabilidade é única e exclusivamente
de quem escolhe. ser solitário
de morte e nascimento. ninguém é responsável

Muito menos tu que conheço desde meu nascimento
embalando o berço emprestado de alguém
és um anjo que da boca só saem flores,
incentivo, motivação, conforto, solidariedade...

Da vez que o monóxido de carbono apenas me trouxe mazelas
não foram tuas palavras justas e amáveis que me afetaram
já tenho a própria vontade inata de partir
a mim é cabido a responsabilidade, já fora dito

Não é que não saibas escutar e apenas falar
tua fala sem ouvidos levaram-me para todo lado
mazelado
somente o ser que escolhe há de ser responsabilizado

Tiro
A minha própria vida
Tiro

Sou quem escolhe, não é? pois não há do que choramingar
reze ao teu deus misericordioso, reclame
faça o que sabes fazer de melhor, fale, fale, fale, fale...
até cair a língua quando o meu pó já fora varrido a eras

Pedir-te clemência já não há mais sentido
por isso as letras nestes versos 
impelido que fui a escrever
meu último espaço verdadeiro

Meu silêncio é a minha verdade 
as letras o corpo
a inspiração respira...

E, no meu poema
a tua fala é a mentira
transmutada em fumaça inerte
apenas não tem mais poder

Foi ilusão pensar que poderia escapar
de minha sina
um sonho quase tangível
desmanchado por tua porca mente

Neste espaço, sou quem determina as regras
as palavras, a verdade e a mentira
o desconforto e o confronto
da dor que me foi talhada décadas a fio

Aqui eu posso escrever que a mentira é a verdade

Verdade
Mentira

Ilusão que não faz mais sentido algum neste impasse
não desejo algo mais da vida
a verdade é a mentira

Morto não tem sina e a verdade que te anima
o dinheiro
será teu pior pesadelo
quando ficares rica com a minha morte. 



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Expectativas



Suspeitou desde cedo não viver.
Ganhar números para ser alguém,
Juntar-se a outros para apreender
A humanidade em códigos, amém.

A vida era sentida sem sentido.
Talvez não fosse Vida, mas sim morte.
Viver morto como um nauseabundo
Junto com vivos-mortos, mesma sorte.

Expectativas que não pertenciam
A ninguém além do que é esperado.
Há de viver, ter; não olhar pro lado!

Alguém tem de morrer para manter
A vida que não é Vida existindo...
Só restam horas para se Morrer.



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Como?


Tela de Bianchetti


Sardônico sorriso com bruxismo
Teus dentes caem como grãos de arroz,
Não há dor maior que o teu niilismo
Já não sabes se é teu fim atroz.

Punhos serrados com testa franzida,
Goela seca pela aleivosia,
Estóico dromedário da tua vida,
Corcunda prenhe de tua teimosia

Lutar já não consegue, moribundo!
Pedir ajuda já não tem ouvido.
As drogas já não mais surtem efeitos.

Como chegou até ali sem dentes
Com a cara de um ser bicho sem sementes?
Insana sanidade sem direitos.



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Viagem




Na penumbra de calafrios em seu quarto,
O ser solitário pressente o inominável.

Ânsia de ser ouvido
Com a voz embargada.
Grunhido estampido,
Cigarra entalada.

Ninguém lhe estende a mão!
Nem amigos de eras atrás,
Muito menos afetos de paz.
Esmorece calado com o tempo em vão.

Desejo,
Carência,
Sentimento.
Tempo!

Deixou-se deixar de ser
Cortou-se em busca de ter
Farrapos de um ser que sofre,
Com olhos críticos, a estrofe.

Resta algo a dizer,
Sempre há.
Não vá,
Fica!

Mas o querer não interfere!
Vão-se os anos nos vincos da face,
Nos dentes que caem um tanto precoce,
Cabelos ralos e brancos consoantes a febre.

Ainda na escuridão do quarto,
Algo escorre denso além do cotidiano.

Devaneios de ser ou não ser,
Não foi e não será, ter ou não ter...
As asas da esperança arrepiam suas costas,
Brilho vivo que aos poucos se afasta em cotas.

Amanhece,
A luz retorna,
E anuncia:
Jaz um corpo ao chão.

E, num traço roto,
Foi-se.



quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Visitas



Fotografia de Alex Melo, todos os direitos reservados



Quando tu vieste
Pensei que não fosses
Quando tu saíste
Pensei que não voltasses.

Se um dia me levares
Acorrentado ao meu banco
Não me tragas de volta

Se uma noite não me procuras
Deitado em sono profundo
Não me acordes e me deixes

De tudo que posso ter apreendido
É que não adianta não te querer
Tu vens quando bem quiseres
Fazes o que bem entenderes

E eu, uma marionete em suas mãos sem dedos.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Da dor à morte

A dor irradia do coração
Direto para a alma um tanto assustada;
A energia sutil está alterada
O corpo fica inerte sem tesão.

Resta ao ser jogar-se aos urros no colchão
Enquanto a ignorância estampada
Aponta-lhe a palavra retesada
De visível e triste incompreensão.

Do primeiro sintoma ao derradeiro
Sessões de terapia e comprimidos
Amigos que vão e vem num berreiro.

A dor dá tréguas para os mais contidos
O alívio se apresenta passageiro
A morte surge nos sonhos queridos.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

voo





Os sonhos foram os primeiros
Os fios de marionete os derradeiros

Filme registrado rápido passado
Na frente da mente demente

Até esfacelar suas pulgas no solo
Artrópodes em pensamentos de dolo

Choro não se ouve, grito não se escuta
Dor não se sente, palavra não é injusta

Voo preciso, cérebro retorcido
Neurônios debatendo-se como peixes

Sinapses em diminutos arrotos
Acabam, Tum, Tum, junto com a batida

Vítima da depressão
Ou apenas um vilão?



domingo, 17 de outubro de 2010

Descaminho

Sangue na derme
Cortada por verme

Escorre fugaz
A vida se esvai

Larvas ácidas
Escalpo suturado

Veneno, voo, tédio, vacina, sina

Fantasmas em correntes por eras
Distorcem a visão das feras

Magrelas esquálidas
Pulso na pulseira
Que cai da cadeira

Sim, não, sim, não

Talvez?

Reminiscências
Reticentes

Exclamações
Dementes

Vulto
Doente

Doi
Doi
Doi
Doi

Foi! 

sábado, 9 de outubro de 2010

Da sacada


Fotografia de Alex Melo, todos os direitos reservados


Com a participação de Saulo Almeida no último terceto




Da sacada, vejo os transeuntes
Tagarelices e gestos frívolos
Escondem sua solidão antes
Que a morte desperte a foice, tolos!

Adornados com as máscaras duras
Usufruto conseguido da sorte
Couraças presas em perucas
Ricas ou pobres, guardada morte.

Desde o pulo daquela sacada,
Morri para o costumeiro dado
Rolado pelo Tempo sem fada.

Nascimento urge em silêncio tato
Moscas vis-à-vis o nauseabundo
Fantoche cego mundano em vida. 




sábado, 31 de julho de 2010

Hipertensão

Acordado após um belo sonho
Vira na cama à procura de algo
E encontra o vazio.

Desperto e um arrepio medonho
A cama era um caixão largo
O nada preenchido tardio.

Fora feliz e alegre,
Fizera bons amigos,
Tivera filhos e amante.

Quase não adoecera em febre,
Galgara facilmente cargos,
Poupara dinheiro em conta corrente.

Uma vida simples e comum.
Ser ordinário moldado à sociedade
Nada dele jazia ali, só o corpo.

Começa então a dor de um,
Depois outro e, logo, todos em paridade
Mexeram o inerte ser junto ao trapo.

Trapo em dor que viria a ser o homem,
Desconjuntado como um bebê,
Começaria a aprender a andar.

Teria mais uma chance, dada ontem
Momento em que tentara se conter,
Viveria sua própria vida, não sem sequelar:

Hipertensão!




Cristiano Melo, 01 de Agosto de 2010.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Morte

(Interior da Roda da Vida, tanka do budismo tibetano: a serpente, o galo e o porco simbolizando
desejo, falta de controle de si e ignorancia, dando movimento ao ciclo)
 








Desde a fecundação estamos mais próximos da morte.
O medo acompanha o ser desde seus primórdios,
Não há o que fazer da biológica sorte
Alguns sábios a gozam sem remédios.

Há mortes em vida, da mãe que perde sua cria,
Da violenta consciência da ilusão,
Do calvário exposto da mazela social,
Da falta de solidariedade de um beco fraterno.

O ciclo já é fechado em circuito
Nasce e morre, a despeito de seu medo
E angústia, pressão que aumenta sem intuito.

Impressão dissolvida da alma no feudo
Tempo impassível a descolorir o morto,
Jaz a morte para um recomeço estrelado.

Cristiano Melo, 30 de Julho de 2010.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Vida e Morte

A bruma densa em que se encobrem os tesouros
Não poderia ter luz mais forte para encontrá-los
Que a própria vida, a existência na insistência
De viver a busca incessante do dourado sagrado.

Não se lhe dá de graça, pela sua graça
Espia por entre a bruma o esperado
Guarda firme o precioso encontrado
Continua a procura de mais da vida esparsa.

Se de cansaço senta e esquece
Diligente esteja para não seres roubado
Pois de vida vivem os vampiros.

Coragem! A mudança não fenece
Mosaico de tua vida untado
A morte te vê por entre os espinhos.

Cristiano Melo, 01 de Fevereiro de 2010.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Vida e Morte

Ter medo da vida,

Mesmo sendo querida

É estar congelado, imobilizado.


Mexer-se causa espanto,

Como um boneco pode se levantar?

A vida cobra de seu canto.


Deixar de ser boneco

Lambuzar-se de vida

Mesmo com temor de pronto.


Eis o início do medo da morte.


Cristiano Melo, 22 de Janeiro de 2010

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Il y a quelque chose?

Nascer, ter o cordão umbilical cortado,
Sentir a gengiva romper ao dente pontiagudo,
Engatinhar e fazer as concavidades da coluna
Cair e levantar, ereto com hematoma.

Compreender os sinais e seus significados,
Do adulto que ri, do que enfurece, do que bate,
Coletivizar com outros estranhos, produção em série
Aprendizado escolar, confusos alfabetizados.

Os dentes começam a cair e outro mais pontiagudo
Toma o seu lugar, ninguém para explicar
Mas sempre um adulto para lhe humilhar.
Tire seu dente sozinho, é o ensinado.

A adolescência é das mais complicadas,
Não se tem referências, nem paciência
Cabeça na parede, batida pra compreender
O que fazem os adultos além de beber?

Cobranças de seu desempenho escolar,
Não adianta pensar em algo além do vestibular
Que seja algo com status, batem os adultos
Cobertos de razão mesquinha, não solidários.

Dizem que o amor permeia até aí o laço familiar,
Agora, são seus afetos pessoais, suas conquistas,
Profissionais e amorosas, casar e filhos ter,
Refletir criticamente não é encorajado.

Adulto se torna? Com medos e ansiedades
Sem saber de onde vem, nem o que fazer
Além de ficar quieto na rede, com o sorriso estampado:
Sorria, a vida é bela! Dizem...

A mulher, da mesma escola, lhe trai,
O trabalho, não escolhido, lhe adoece,
A vida que dizem, não é a sua.
É o caso de se perguntar: quem sou eu?

E a vitrine de alguém bem sucedido,
Finalmente se parte, doenças surgem
Dinheiro nenhum cura a ferida
E a sua única amiga: a morte.

Esta é a sina do homem mediano,
De classe média, que classe?
Tomar comprimidos para viver,
Ou, finalmente descansar...

Cristiano Melo, Julho de 2009

terça-feira, 2 de junho de 2009

O caminho

por do Sol em Fortaleza, no alto mar

Cambalear errante por entre linhas escusas,
Tatear o lado escuro penetrante,
Sentir o cheiro da vida e da morte.

Questionar o inquestionável,
Saborear a fruta do conhecimento,
Eriçar o pelo com frio na espinha.

Solucionar questões e abandoná-las,
Escutar passos de seu humano vizinho,
Observar o horizonte e o início.

Estar no caminho da vida e da morte
Ser o que se é
Nadar contra a maré.

Cristiano Melo, 02 de Junho de 2009.


terça-feira, 26 de maio de 2009

Temor

Temer o fim do amor que lhe arrouba o afeto
Nada traz à sua liberdade de concreto.

Temer a dor na carne lancinante
Não aplaca a sensação perpetrante.

Temer a despedida impregnavel da lágrima jocosa
Não limpa a saudade por si consutosa.

Temer a morte do ser querido
Não a afastará do ato consumado.

Temer o passado e o futuro
Não traz paz ao presente.

Se à propria sorte lhe é reservado a morte,
Não há consistência no temer!


Cristiano Melo, 01 de Setembro de 2008
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