quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Gustava


Há tempos não via aquela bunda, rebolando faceira, por dentro daquele vestido florido, as mesmas flores amarelas de sempre, próximas a folhas de temperos e hortaliças, que roçavam em seu pano puído. Passava com aquele perfume forte pra uma manhã em que até os pássaros, preguiçosos, davam os primeiros sinais de que o Sol surgia na cidade.

Onde andaria Gustava que simplesmente desaparecera sem se despedir da vila? Alguns se perguntavam do porque de não ter se despedido, ela era sempre tão gentil, ajudava todo mundo, cozinhava bem e todo mundo sempre se fartava na bóia da Gustava, quase todo dia. Pra falar a verdade, era todo dia, variava apenas um ou outro vizinho, mas Gustava adorava ficar nas panelas, suada, com aquela fumaça toda, os cheiros, o chão engordurado, as visitas que beijavam seu rosto ensebado. Mas, antes de todos comerem, a corpulenta mulher tomava seu banho e voltava com aquele perfume forte, o de sempre. Refestelavam-se logo que Gustava pegava na colher, era uma comedeira, bebedeira, balbúrdia alegre e encantada para quem comia daqueles pratos de tempero maravilhosos, e tinha pra todos os gostos, peixe, carne, frango, feijoada, farofa, pirão, era sempre farto, sempre.

Recordo que foi num dia chuvoso, que percebi as primeiras pessoas se amontoando ao meio-dia na porta do barraco de Gustava. Lembro que era chuvoso, pois na vila quando caía muita água, o rio próximo transbordava e a molecada não ia pra escola pra ficar tomando banho de rio, que eram as vielas da vila, e, mesmo com o rio barrento, havia pessoas que aguardavam à porta fechada de Guta, criando uma imagem difícil de esquecer, a enxurrada acima dos joelhos, já nos quadris, e como em fila de banco, alguns começavam a reclamar da demora. E, ela não apareceu. A porta continuou trancada.

Passou-se alguns meses até não se formar mais fila alguma naquele barraco de compensado vermelho, pintado de roxo. E nem sinal da enorme mulher. Não demorou para que as teorias surgissem, pois ela era, além de fisicamente incomparável, alta, gorda, negra e sorriso aberto, largo sob olhos enormes de bolas avermelhadas e manca, era a vizinha mais gentil e dedicada da vila. Além da comilança, sempre disponível para dar seu colo divã para quem precisava chorar, e ela enrolava os cabelos da pessoa e não dizia nada enquanto choravam até molhar suas pernas de lágrimas. Parecia até consultório psicológico, pois de hora em hora, Gustava nunca soube, chegava sempre um, após as três da tarde, quando acabara de lavar a pilha de panelas e pratos do almoço, eles chegavam, um a um, sempre.

Das teorias que surgiram, nenhuma passava nem perto de ela ter conhecido alguém e fugira para viver uma vida de amor carnal, ela era uma santa, como santos podem ter relacionamentos afetivos? Nem passava pela cabeça do mais ousado da vila, ainda mais porque ela era o que era, quem iria querer ter alguma coisa com aquela mulher parecida saída das portas dos infernos? É o que se perguntavam os moradores da vila. Impossível, eram taxativos, jamais Gustava iria deixá-los por causa de namoricos, imagine! Se ela fosse trepar com alguém quebrava a cama, relinchavam os mais novos. Quem conseguiria abraçar aquele tribufu, era a questão no bar da esquina. Ela era feia de doer, ainda bem que foi embora, ninguém aguentava ver aquela bundona rebolando manca pela vila, é o que as mulheres repetiam como mantra todos os dias, depois que Guta sumiu com a chuva.

E o barraco? Pra quem é que fica? Foi a próxima dúvida a que a comunidade se alardeou, pois, como iriam deixar que um estranho fosse morar ali, não, de jeito nenhum, poderia ser um marginal. E todos queriam o barraco dela. A questão era quem que era mais chegado nela. Começaram a surgir parentescos, sobrinhas, filhas até, e o barraco roxo continuava fechado, até o dia em que alguém mais assanhado tocou na maçaneta, foi o suficiente pra muitos arrombarem a porta e poucos conseguirem entrar. Como não sabiam quem era realmente parente da Guta, deixaram o barraco para as meninas que acabaram de dar a luz a bebês esfomeados e não tinham um barraco, o que também foi complicado chegar a um acordo, pois o número era grande demais, afinal o barraco só tinha dois cômodos para dormir, junto à pequena sala. Decidiram que poderiam morar cinco meninas ali. Duas em cada quarto e uma na saleta, todas com seus respectivos mancebos concebidos. Como eram mais de dez meninas, fizeram sorteio com os nomes dobrados numa caixinha, e, após muito bate-boca de acusações de que tinham colocado mais de uma vez o mesmo nome, e que era uma trapaça aquele sorteio, cinco mães adolescentes foram tomar posse do barrado de Gustava, e em nenhum momento ouvi alguém perguntar o que fariam quando, se por um acaso Guta voltasse, nenhuma palavra.

Já havia passado mais de ano, quando eu a vi àquela manhã. Vinha da feira, com sacola farta de comida. Ia no seu ritmo, com a bunda balançando na cadência de suas subidas e descidas dos seus passos. Quando finalmente alguém a avistou e gritou: “aquela gorda medonha voltou!” repetidas vezes, até a vila inteira acordar e ir ter à ruela ou pela janela mesmo. Ela, toda sorrisos, já era acostumada a ser chamada de apelidos como aquele, e se dirigia ao barraco roxo, onde umas duas mães balançavam meninos magrelos que berravam. Gustava estava bonita, com o vestido de flores amarelas e perfumada, uma visão de beleza e de felicidade por poder voltar à sua querida comunidade, depois de ter passado um tempo viajando à sua terra natal, depois de ter lido uma carta, naquele dia mesmo da chuva, que relatava o casamento de sua irmã pra dali a dois dias.
      
       Com os olhos maiores do que de costume, por tê-los arregalados à visão da primeira pedra atirada em sua direção, seguidas de dezenas de todos os tamanhos e pesos, dependia da força da pessoa. Todos jogaram pedras em Guta, que não demorou a cair junto com suas cebolas e tomates, na ruela de barro. Feito um tomate grande que estoura deixando o seu sumo escorrer se for apertado com força, Gustava deixou seu sangue escorrer pelo chão aos urros da horda que lhe aniquilava. Não pude fazer nada, minhas raízes não permitiam, estava feliz de ver Guta e triste fiquei ao vê-la morta por seus vizinhos, nada indicava que fosse acontecer tal tragédia, nada. Eu como a árvore predileta de Guta, pois fui plantada por ela ainda pequena, bem na entrada da vila e, de onde podia observar tudo e todos, não entendi o que havia acontecido. E só pude deixar minhas folhas caírem junto com o sangue de Gustava.


3 comentários:

  1. Uau, Cris... impressionante, não podia imaginar tal final.
    Será que a felicidade incomoda tanto a ponto de se querer derrubar o outro? Sei lá, encafifei...

    Beijos

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  2. adorei o final! tenho certeza que a felicidade alheia incomoda muito os outros. por isso, é preciso falar menos, agir mais e ser. só isso e o suficente para vivermos.
    bj

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  3. Cris,
    obrigado por ter ficado encafifada, significa que, de alguma maneira a toquei com meu conto (isso é o maior dos "elogios" a um escritor)
    bjos

    Andrea,
    Gostei do "falar menos, agir mais e ser". PERFEITO e sábio.
    Obrigado pelo comentário
    beijos

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