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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Luto






Hoje soube que um amigo faleceu, de minha geração. Soube também que outro, da mesma "turma" de Fortaleza em idos de 1990 se foi com pouco mais de 40. A morte faz parte da vida, mas é um tanto estranho quando alguém com pouca idade se vai. Um conhecia pouco, outro conhecia muito, no entanto era como se fôssemos de uma mesma família. E talvez fôssemos, da mesma família de amigos, aqueles que escolhemos.

Uma amiga-irmã também se foi, muito cedo. Fizemos uma festa-homenagem a ela em Arraial d'Ajuda onde costumava passar mais tempo.

Tenho quadros dela. Deles, tenho fotografias. A alegria que tinham, acredito, não dá espaço para se chorar além do luto. Lembrar deles com alegria é enaltecer o tempo que tivemos e a vida que existe nas recordações.

Já escreveram muito sobre que a vida é uma coleção de perdas e como lidamos com elas, as perdas.

Por mais que se tente expressar em palavras sentimentos como os da perda precoce de amigos-família, jamais conseguiremos deixar de fora algo a dizer, a completude no incompleto e também no incompreensível.

Estou triste, sim, porque a tristeza é humana e eles se foram cedo demais. Cedo demais.

Conforto-me no que acredito, mesmo que a tristeza tente prevalecer. 

Vai ser luz, estrela, e continue no caminho, é apenas uma passagem. Outros o esperam.
Faça uma boa viagem, com guias de nossa "família".



domingo, 17 de outubro de 2010

O reverso do espelho







Aquele rosto recém tirado de enorme sanduíche
Maionese e outros molhos grudados
A guloseima segura com as duas mãos
Num prazer que se traduzia no sorriso dos olhos.

E o olhar apertou-se mais ainda num sorrir encantador.
Aquele conjunto paralisado e eternizado em minha mente
Trazia calafrios junto a inumeráveis desejos imediatistas
Traduzidos no sublime acalento de uma ópera divina.

Segundos se tornaram horas e até dias
Num furacão de química e reflexão.
Existe amor a primeira vista?
A primeira indagação àquela visão.

A maionese, o prazer ao comer, o olhar, as mãos
Aquele universo a desvendar bem à minha frente
A poucos passos, que a cada um, aumentava a aflição
As batidas do coração pareciam vir da boca, estupor.

O medo aparece, junto ao vazio da existência
A carência da solteirice martelando, confuso
Era aquilo realidade, ou meu espelho distorcido?
Não seria carência, e sim completa experiência.

Faltavam poucos passos para a troca de olhares
O suor na testa, a dor no estômago, temperaturas alteradas
E eu na mesma direção com toneladas aos pés,
A insegurança começava a surgir, será que seria reconhecido?

Mais uma abocanhada naquele enorme e gorduroso pão
O rosto mais lambuzado e aquele olhar, sem me ver
Que burilava alegre alheio aos outros, a linda face
Coberta de maionese não se importava, eu sim.

Ficava mais animado, encontraria um ser humano enfim
Tal qual num espelho, os passos mais rápidos e a confiança
De volta numa fração incalculável, eu já sorria
Chego à mesa, nossos olhares são reconhecidos.

Sentei, conversei, não falei da face melada, diamante bruto
O olhar retribuído, os sorrisos também, algo estava para acontecer
E prenunciava alegria corroborada com o profundo olhar
De um no outro. Polaróide urbana, mais um casal na grande cidade.

E pra saber quem reflete quem, espelhos de encontros
Nem o tempo dirá, pois aquele foi o tempo, mágico e real
Dos dois que se amaram em olhar pra dentro de si
E encontrar-se no sorriso do outro, só!

Chegara a minha vez de melar o meu rosto com maionese.



sábado, 31 de julho de 2010

Hipertensão

Acordado após um belo sonho
Vira na cama à procura de algo
E encontra o vazio.

Desperto e um arrepio medonho
A cama era um caixão largo
O nada preenchido tardio.

Fora feliz e alegre,
Fizera bons amigos,
Tivera filhos e amante.

Quase não adoecera em febre,
Galgara facilmente cargos,
Poupara dinheiro em conta corrente.

Uma vida simples e comum.
Ser ordinário moldado à sociedade
Nada dele jazia ali, só o corpo.

Começa então a dor de um,
Depois outro e, logo, todos em paridade
Mexeram o inerte ser junto ao trapo.

Trapo em dor que viria a ser o homem,
Desconjuntado como um bebê,
Começaria a aprender a andar.

Teria mais uma chance, dada ontem
Momento em que tentara se conter,
Viveria sua própria vida, não sem sequelar:

Hipertensão!




Cristiano Melo, 01 de Agosto de 2010.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Sobre o Amor



Das partes que me constroem
O amor é o que mais me confunde.

Fala-se tanto,
Escreve-se muito.

Não consigo encontrar seu significado
Nem em fala, nem em escrita, em qualquer lado.

Mergulhei ao fundo do mar,
Viajei ao fim do mundo,
Escalei os Andes,
Penetrei na Amazônia.

Nada!

Conversei com indígenas,
Absorvi conhecimento acadêmico,
Encontrei a terapia,
Esbaldei-me no empirismo.

Nada!

Fui ao passado, presente e futuro...
Questionei oráculos e líderes comunitários.

Todos sabiam o que era o amor,
Mas não me encontrei nesses significados.

Amor, define-se como um sentimento?
Amor, metáfora de uma batida de coração?
Amor, realidade fantasiosa de poemas piegas?
Amor, objeto de busca incessante no outro?

Sabor de que existem então diversos
Não há um amor
Talvez sim amores
Em mim, nada, ou tudo!

Cristiano Melo, 09 de Junho de 2009.
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