domingo, 31 de maio de 2009

O OUTRO



Foi quando olhou para a figura na sombra do beco próximo, que viu o inusitado. Com a mão cobrindo o raio de sol, e apertando a vista, sem acreditar no que via, percebeu que havia um homem que olhava para ele, e o não acreditar vinha da percepção de que aquele ser era parecido com ele. Voltou-se para o beco e caminhou mais um pouco, devagar, atordoado com a situação que se aproximava, ele sentia. O outro também fez o mesmo, na mesma velocidade. Olhares sem palavras, pois daria para se ouvir um ao outro no espaço que os separava, continuavam curiosos, sim o outro também expressava surpresa, a analisar as feições de cada qual. O outro ainda estava no escuro e o homem não teve a coragem de entrar no beco, e, já estavam a dois metros um do outro. A boca tremeu, ao tentar balbuciar alguma coisa como um bom dia, ou qualquer introdução de si, nada, nem um som, só lábios trêmulos. Ficaram assim, inertes, espasmos visíveis nos braços e pernas, fugir ou enfrentar o que viria logo em seguida, sim ele sentia que algo estava para acontecer, e o outro parecia sentir o mesmo, pois não sabia onde por as mãos e nem conseguia voltar de onde saíra, do beco escuro.

O sol brilhou mais esquentando a pele do homem, um certo incomodo, o calor que começava a lhe brotar gotas de suor pela testa, e o receio de encarar o lado escuro daquela rua. Mas não podia fazer mais nada e já se passara mais de duas horas naquela situação. Foi quando conseguiu, com tremendo esforço, articular palavras. E o que se ouviu foi uma espécie de choro, palavras chorosas.
“Quem é você?”, foi o que saiu de sua boca. “Não sabe?”, a resposta no mesmo tom. “N-não... Deveria?”, e quase fugiu nesse momento com o temor que crescia. “Talvez devesse saber, pois eu sei quem é você, só não esperava vê-lo tão cedo”, o outro retrucou já com uma voz mais firme e um olhar mais penetrante. “D-desconfio que eu saiba, mas estou confuso, como isso pode acontecer? Eu só estava indo pro trabalho...”, e entrou na sombra do beco, a um passo de seu interlocutor. “Não existem respostas fáceis, na verdade não existe nada que eu saiba que você também não saiba!”. O corpo todo ensopado de suor, mas não devido ao calor e sim pelo medo que começava a imobilizá-lo, “como assim? Você é alguma espécie de mágico ou vidente?”. “Não, nada disso, e compreendo a sua ignorância, fantasiei até que você nunca me descobrisse, pois poderia continuar no meu lugar”. “Mas o que eu tenho a ver com o fato de você sair de seu lugar?”, perguntou o homem já um pouco mais tranquilo, afinal o seu interlocutor era muito parecido com ele fisicamente, e isso que o havia deixado curioso e com medo, agora cedia a uma sensação de segurança. “Ora, meu caro, não percebe como temos os mesmo olhos, o mesmo corpo?”. “Sim percebi desde o inicio”. “Pois, eu sou você, e sei que não sabia de minha existência. Sei também que algumas vezes me percebeu, mas nunca como agora. Já chegou a me ver em diversos momentos, mas nunca parou para trocar palavra, e confesso que não era para isso acontecer. Agora sou eu que estou confuso”, estavam quase abraçados nesse momento. “Então você é o meu eu profundo? O lado da escuridão que pensei não ter?!”, “sim, talvez possa chamar assim”, e levou a mão ao ombro do homem. “Mas isso é algo bom, não?!”, retrucou ao olhar que a mão tinha pelos. “Depende! Muito embora agora que nos encontramos, não há mais retorno, e se isto é bom ou ruim, são valores agregados de sua cultura e moral”. “Não há que se empregar valor nesse tipo de encontro”, e levou a outra mão peluda ao outro ombro. “Certo, sem agregar valor... Isso eu aceito e compreendo, mas o que acontecerá agora?”, perguntou enquanto fez o mesmo, só que com as duas mãos de uma vez, os dois quase abraçados, separados por braços. “Não sei, mas saberemos, não há como voltar atrás...”, e suas reticências foram interrompidas por uma leve luz sonora que veio dos respectivos corações. Inicialmente tênue depois cada vez mais forte. Dois corpos que se fundiram. Um ser foi constituído, de dois seres que eram o mesmo.

Transformação concluída e o homem, com um olhar confiante, saiu do beco para o mundo.

Cristiano Melo, 31 de Maio de 2009.

2 comentários:

  1. Pois é Bea, não é pra quem quer...Infelizmente!
    Tento vencer a preguiça e escrever mais em prosa, adoro suas sugestões.
    beijos minha querida amiga

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